Eles eram muitos, os bem-te-vis. Os três morros que se erguem do maciço central estavam cobertos de mata. Mal o sol ameaçava surgir, os bem-te-vis vinham em bandos de lá, para pousar sobre a torres dos sinos do velho Convento de São Francisco e cantar as primícias da manhã.
E assim foi por muitos e muitos anos. Antes que tudo no Centro mudasse. Antes que as casas fossem fechando; as avenidas e as calçadas ficando desertas de lojas, vazias de passeantes. Antes que o Centro fosse aos poucos sendo abandonado pelas gentes que partiam para fazer morada em bairros mais novos, considerados mais elegantes, abandonando as construções centenárias do lugar em que a cidade nasceu.
Seria de se esperar que com o esvaziamento do Centro, os bem-te-vis se sentissem à vontade, tomassem conta do espaço. Mas isso não aconteceu. Eles foram ficando cada vez mais raros. Já não vinham em bandos buscar o conforto das velhas telhas, do gramado e dos galhos do vetusto flambloyant, que, apesar de tudo, resiste, nos jardins do Convento.
Alguns ainda aparecem, à tardinha. Voejam por cima da fachada suja e enegrecida, pousam nas pontas de metal que seguem flechando na direção do céu. Esses poucos logo são espantados pelo rumor daquela multidão que, diariamente, se instala para dormir na varanda coberta do que outrora foi uma igreja e, hoje, abandonada de suas funções, serve apenas de dormitório de uma população que vive nas ruas e se recusa a ir para qualquer tipo de abrigo.
Não se trata de preferir os bem-te-vis a essas desventuradas criaturas como algumas boas almas podem argumentar. Trata-se de considerar o convento de São Francisco como parte de nosso patrimônio histórico. Não apenas uma ruína com paredes antigas. Vê-lo coberto de detritos de papelão e plástico, pedaços de cobertores, panos abandonados e resíduos humanos, não deveria ser indiferente aos cuidados públicos. Nem menos aflitivo que a obrigação de fornecer amparo digno a pessoas que têm em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos, a inexistência de moradia.
O abandono do Convento e a situação desses seres humanos em desventura são duas coisas que doem na alma e exigem atenção. Uma terceira é saber que os bem-te-vis, que eram tantos, desertaram. Ouve-se seu grito, cada vez mais longe, cada vez mais esparso na mata que, por sua vez, cada vez mais é mais assolada por casas que sobem morros afora. Alguns deles até mesmo apenas gaguejam “te vi"... "te vi”. Como se o tempo e a indiferença para com as agruras do Centro atuassem sobre a própria canoridade dos pássaros.