Ficou fácil publicar um livro. “Desde que o postulante à fama literária possa pagar”, falou-me alguém, desiludido com o desenlace do sonho de ser publicado, por falta “daquilo com se compram os melões” (como dizia meu saudoso mestre Guilherme Santos Neves).
Uma coisa é certa: publicar virou moda. Romancistas, contistas, poetas e demais escreventes aparecem de todos os lados. Ao mesmo tempo, uma imensa quantidade de editoras surge a cada momento. Algumas usam nomes chamativos, anunciam nas redes sociais, oferecem contratos atraentes e dadivosas promessas, que acendem o desejo de quem pensa em ter o nome exposto em uma folha de rosto, em uma lombada, em uma capa. É questão de mercado: oferta versus procura e vice-versa.
Pena que essa mania que atualmente varre o país não se reflita no número de leitoras e leitores. O Brasil vem perdendo o hábito da leitura. Em quatro anos, foram quase sete milhões de pessoas que deixaram de ler por aqui, dizem as pesquisas. Um alarmante número de abandono de uma atividade básica, definida como um processo cognitivo dos mais importantes para a comunicação e o conhecimento dos seres humanos. Por outro lado, a banalização da escrita reflete um descaso com a utilização de palavras para criar significados que exercitem a imaginação e desenvolvam ideias, sentimentos e conceitos, além de ativar os cérebros.
Estudiosos e pesquisadores se debruçam sobre o fenômeno, tentam razões, buscam alternativas. Porém é preciso lembrar que o século XXI, com sua altíssima carga tecnológica digital e sua cultura exacerbada da imagem, não favorece mesmo a leitura de livros em papel. A leitura que se faz em uma tela de celular ou de computador é não linear e exige outro tipo de conhecimento processual que não é igual àquele feito através da virada de páginas impressas e que segue uma linearidade de cima para baixo, da esquerda para a direita.
A esse princípio básico se junta o conservadorismo que impede a consideração de que são muitos os tipos de leitura possíveis e reivindicam apenas as formas tradicionais; quando não, a crosta de rigidez que exige uma repartição de gêneros, como ocorre na prática exercitada por um tipo de academicismo, nas escolas e nos grupos dedicados à leitura literária.
No entanto o contexto da cultura e da sociedade atuais pede maior abertura nas relações entre ler e escrever. Talvez essa abertura, apoiada na liberdade de escolhas, seja uma solução ou pelo menos uma preparação para que as gerações vindouras possam exercer conhecimento na multiplicidade de leituras e coexistir com a inevitável mutação do mundo.