Todos os anos, quando 12 de fevereiro se aproxima, eu penso no escritor que me deu a chave para escrever do modo que assim é, se bem me pareça. Mas esse não é o dia da minha alegria. É o dia da minha tristeza. Pois foi o dia em que, no ano de 1984, morreu Júlio Cortázar, meu professor de exorcismos das coisas chatas, melífluas e arrogantes, que, com uma astúcia habilmente disfarçada de humildade, se insinuam nos escritos de muita gente.
Em 2024, 12 de fevereiro marcou quarenta anos dessa morte sentida. E o governo de Buenos Aires prestou homenagens ao escritor, que tinha orgulho de ser sul-americano, embora tivesse nascido na embaixada da Argentina, na Bélgica. Uma ciranda de leituras públicas, filmes documentários, caminhadas e outros eventos comemorativos marcaram o começo do chamado “Ano Cortázar”, até 12 de fevereiro de 2025.
Uma demonstração de reconhecimento ao autor da beleza fragmentada de inesquecíveis romances, crônicas, poemas e contos. Os contos, sobretudo, são a essência mesma de Cortázar. Embora “Rayuela”, seu mais famoso romance, seja “uma espécie de resumo de muitos desejos, de muitas noções, de muitas esperanças e, também, porque não, de muitos fracassos”, como o autor explicou, em carta, a Jean Barnabé.
O tempo é o “senhor da razão”, disse um ex-presidente brasileiro, famoso por suas camisetas com frases pseudofilosóficas. Mas também pode ser o “pastor do ressentimento”. Só dessa forma é possível compreender que alguns críticos, loucos para demonstrar seus dotes de inquisidores quanto ao “alto valor literário”, digam que Cortázar escrevia de modo “facilmente digerido”, para iniciantes.
A mim, o que me importa é que foi com Cortázar que aprendi o assombro de escrever ficção, sem esperar recompensas outras além daquele prazer que sente qualquer criatura que se mete a repartir as suas invencionices com outras tantas criaturas que, ao lê-las, tanto podem sentir o bendito arrepio na espinha, de que fala Vladimir Nabokov (outro Mestre de minhas escapadelas pelo universo das palavras), quanto podem torcer o nariz, declarando que aquilo que escrevo não passa de bobagens sem nenhum rigor.
Com Cortázar, também aprendi que escrever se torna um ato de gratidão para com leitoras e leitores que me dão tantas doçuras a cada vez que reagem a um meu livro e, assim, me fazem sempre escrever mais histórias. Acima de tudo, com ele, aprendi que é preciso seguir escrevendo como um impulso para não esquecer; para estar desperta nesse mundo sinistro de hoje, com suas máquinas de sangue, guerras, enganos, armadilhas, picuinhas e vaidades.