Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Crônica

O apodrecimento do cérebro na era digital

A exposição nossa de cada dia a conteúdos cada vez mais rápidos e superficiais acaba ganhando as cores de um vício

Públicado em 

30 dez 2024 às 22:30
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Era uma vez, no longínquo ano de 1854, um senhor de barba e bigodes espessos que resolveu escrever para criticar a onda, naquele tempo vigente, da entrega da primazia da cultura às mudanças trazidas pela revolução industrial, coisa que, para ele, acarretava ideais e hábitos daninhos de acomodação das sociedades.
O nome desse senhor é Thoreau, Henry David Thoreau, uma espécie de Bond, James Bond, do século XIX, empenhado na luta contra um modelo de credo social daquela época, semelhante a alguns desses que até agora são rezados por gente que venera nomes de supostos benfeitores da educação e da defesa do povo e confunde populismo político com benemerência desinteressada.
Thoreau, então, fez um livro que titulou ”Walden ou A vida nos bosques”. Naquelas páginas, tidas como um tanto ingênuas, usou uma expressão que, agora, em pleno século XXI, o conceituado Dicionário Oxford elege como sendo a palavra mais importante do ano de 2024: “brain rot”. E o que significa “brain rot”, esse termo que os punks já usavam em seus melhores dias? O que o torna uma estrela da mídia para ser eleito como o mais importante nos dias que se seguem hoje?
Como o inglês é uma língua que até os bebês balbuciam, tanta a difusão que dela se faz, traduzir a expressão vai parecer tolice. Vocês não ignoram que, em bom português, isso quer dizer “cérebro podre”, ou “podridão cerebral”. Nada mais adequado para descrever a exaustão mental que a explosão da era digital provoca, expondo nossas pobres cabeças a uma infinitude de informações acumuladas que se amontoam, por exemplo, na mente das criaturas que usam e abusam das redes sociais para muito além das formas mais tradicionais de conhecimento e reconhecimento usadas até agora.
A exposição nossa de cada dia a conteúdos cada vez mais rápidos e superficiais acaba ganhando as cores de um vício. Parece uma tolice argumentar que são incomensuráveis os danos causados pela exposição excessiva a conteúdos novidadeiros, imagens e notícias da internet, que a gente ouve, vê, aceita, compartilha, com a mesma ligeireza e o gozo com que se come um bombom.
Mas não se enganem, vocês. Os impactos do brain rot vão muito além de uma simples distração e escravizam as criaturas, expostas a oportunistas manipulações. Que atire a primeira pedra quem possa afirmar, sem cair em uma contradição, que a capacidade de foco e de pensamento crítico permanece intacta e o cérebro não se atordoa e não apodrece, diante de tanta variedade de informação, de tanto acúmulo de conteúdos banais, de tanto oportunismo nas redes.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
'EUA estão vencendo, vencendo como nunca': Trump discursa sobre guerra no Irã
Imagem de destaque
Suspeito de matar estudante de Direito em Cariacica ligou para familiares dela durante velório
Imagem de destaque
MPES já havia notificado Prefeitura sobre rua que desabou em Jerônimo Monteiro

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados