Era uma vez, no longínquo ano de 1854, um senhor de barba e bigodes espessos que resolveu escrever para criticar a onda, naquele tempo vigente, da entrega da primazia da cultura às mudanças trazidas pela revolução industrial, coisa que, para ele, acarretava ideais e hábitos daninhos de acomodação das sociedades.
O nome desse senhor é Thoreau, Henry David Thoreau, uma espécie de Bond, James Bond, do século XIX, empenhado na luta contra um modelo de credo social daquela época, semelhante a alguns desses que até agora são rezados por gente que venera nomes de supostos benfeitores da educação e da defesa do povo e confunde populismo político com benemerência desinteressada.
Thoreau, então, fez um livro que titulou ”Walden ou A vida nos bosques”. Naquelas páginas, tidas como um tanto ingênuas, usou uma expressão que, agora, em pleno século XXI, o conceituado Dicionário Oxford elege como sendo a palavra mais importante do ano de 2024: “brain rot”. E o que significa “brain rot”, esse termo que os punks já usavam em seus melhores dias? O que o torna uma estrela da mídia para ser eleito como o mais importante nos dias que se seguem hoje?
Como o inglês é uma língua que até os bebês balbuciam, tanta a difusão que dela se faz, traduzir a expressão vai parecer tolice. Vocês não ignoram que, em bom português, isso quer dizer “cérebro podre”, ou “podridão cerebral”. Nada mais adequado para descrever a exaustão mental que a explosão da era digital provoca, expondo nossas pobres cabeças a uma infinitude de informações acumuladas que se amontoam, por exemplo, na mente das criaturas que usam e abusam das redes sociais para muito além das formas mais tradicionais de conhecimento e reconhecimento usadas até agora.
A exposição nossa de cada dia a conteúdos cada vez mais rápidos e superficiais acaba ganhando as cores de um vício. Parece uma tolice argumentar que são incomensuráveis os danos causados pela exposição excessiva a conteúdos novidadeiros, imagens e notícias da internet, que a gente ouve, vê, aceita, compartilha, com a mesma ligeireza e o gozo com que se come um bombom.
Mas não se enganem, vocês. Os impactos do brain rot vão muito além de uma simples distração e escravizam as criaturas, expostas a oportunistas manipulações. Que atire a primeira pedra quem possa afirmar, sem cair em uma contradição, que a capacidade de foco e de pensamento crítico permanece intacta e o cérebro não se atordoa e não apodrece, diante de tanta variedade de informação, de tanto acúmulo de conteúdos banais, de tanto oportunismo nas redes.