Sair
Assine
Entrar

Crônica

O Ticumbi e a resistência da cultura afro-brasileira

Cresci vendo aquele grupo de homens pretos, vestidos de batas brancas cobertas de rendas, que corriam pelas ruas, debaixo do sol, cantando e batendo pandeiros, deixando voar ao vento as fitas de tafetá que lhes caiam pelas costas, em chumaços

Publicado em 18 de Novembro de 2024 às 18:52

Públicado em 

18 nov 2024 às 18:52
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Em novembro, tem o feriado do Dia da Consciência Negra. Pouca gente se dá conta de que em um dia 20 deste mesmo mês, no longínquo ano de 1695, Zumbi, o último líder do quilombo dos Palmares, foi capturado e morto por ordem do governo. A data foi escolhida para que a gente nunca se esqueça da resistência do povo preto na luta contra a escravidão e seu triste cortejo de perseguições, dor, desmerecimento e outros horrores que ainda hoje ressurgem.
Uma das formas dessa resistência é a marca continuada da cultura africana, inscrita na pele e na alma dos escravizados e perpetuada por seus descendentes. Um bom exemplo são rituais que deixam entrever uma presença cultural africana, muitas vezes dissimulada, como ocorre com o Ticumbi do Norte do Espírito Santo.
Grupo Ticumbi na tradicional Festa de São Benedito e São Sebastião, em Itaúnas
Grupo Ticumbi na tradicional Festa de São Benedito e São Sebastião, em Itaúnas Crédito: Fernando Madeira
Nascida e criada em Conceição da Barra, desde a infância tive um vínculo de encantamento com o Ticumbi. Cresci vendo aquele grupo de homens pretos, vestidos de batas brancas cobertas de rendas, que corriam pelas ruas, debaixo do sol, cantando e batendo pandeiros, deixando voar ao vento as fitas de tafetá que lhes caiam pelas costas, em chumaços.
Meu avô Manoel Cunha, um mulato (como ele mesmo dizia com orgulho), merecia o respeito e a confiança do grupo pelas suas origens. Era o guardião dos adornos com que as mulheres enfeitavam o pescoço e o peito dos reis, embaixadores e congos guerreiros, quando desciam o Cricaré e desembarcavam da canoa, trazendo a pequenina imagem, carinhosamente chamada de São Benedito das Piabas e apelidada de Bino.
Trata-se de uma pequena escultura de cerca de 20 centímetros, talhada em madeira, com uma diminuta criança preta nos braços, bem semelhante às esculturas feitas pelos artesãos bantos na África. Sua origem é desconhecida. Existem versões, mas não passam de fantasias saídas da imaginação fértil de alguns.
E enquanto a imagem de São Benedito, o santo que os colonizadores portugueses deram aos escravizados como padroeiro, é louvada ao som de pandeiros na porta da igreja matriz, pelos brincantes do Ticumbi; o pequenino Bino segue a peregrinar pelas ruas, levado ao colo de uma devota, acompanhado pela batida de guerra dos tambores de jongo.
Ambas as imagens são tratadas com toda a cortesia e respeito, como sendo um só santo. Mas quero crer que no jogo da resistência cultural encenado pelo Ticumbi, enquanto a religiosidade católica branca se impõe na imagem do São Benedito do altar da igreja matriz, é na pequena imagem peregrina do Bino que se encontram os elementos legítimos da ancestralidade afro em nosso país.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Binário entre a Rodovia do Sol e a Avenida Saturnino Rangel Mauro, em Vila Velha
Postes na Rodovia do Sol vão ser removidos a partir de segunda (1º)
Motociclista de 51 anos morreu após cair da moto que pilotava na BR 101, em Linhares
Motociclista morre após cair de moto em acidente na BR 101 em Linhares
Imagem de destaque
9 receitas ricas em proteínas magras para o jantar

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados