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Crônica

Como anda a literatura de hoje?

É o mercado quem põe a mesa para o jantar. Hoje, o mercado editorial maneja a produção literária a seu bel-prazer, com editoras e mídias especializadas valorizando os temas que melhor se vendem

Públicado em 

16 dez 2024 às 23:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Escritoras e escritores são bichos diferentes entre si. Há quem conte histórias inventadas, das mais variadas maneiras; há quem escreva sobre situações cotidianas; há quem queira resgatar sonhos ideais de identidade; há quem fique a dar voltas em torno do rabo da própria escritura, como um cachorro louco. Há de tudo, afinal. Vocês podem escolher e acrescentar uma opinião.
Mas isso não importa. Escritora ou escritor, que verdadeiramente preza a literatura, é sempre quem melhor escreve as coisas saídas da imaginação; quem considera que a linguagem está muito além de ser um simples instrumento destinado a exprimir sentimentos e ideias; quem dá à linguagem o papel de ser sua nave extraviada e faz das palavras seu bote de salvação.
Escritores também são a antena da raça (Ezra Pound falou só de poetas, mas cá como lá muita antena há...). Então nada melhor que esmiuçar escrituras (palavrinha que Barthes diz soar bem mais apropriada de que literatura) para saber como a raça humana pensa e ideologiza através das inevitáveis mudanças que vai atravessando. Pois a humanidade é um círculo vicioso em que as criaturas estão acorrentadas, mordendo a própria cauda, como diria Beckett.
Vivemos tempos confusos. Há coisas estranhas no ar muito mais de que discos voadores, satélites espiões e aviões de carreira. A altíssima tecnologia está desenfreada. Faz a gente pensar no delírio de Goya: “El sueño de la razon produce monstros... O sonho da razão produz monstros (se é que podemos chamar de monstros coisas como a IA). Hoje a vida anda muito depressa. Volatiza-se. Os meios de expressão que a arte e a cultura têm posto à disposição dos humanos, agora, são meros fast-food. O tempo se tornou um cozinheiro apressado. Na caçarola do tempo, tudo vira uma grande omelete.
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Literatura Crédito: Freepik
E é o mercado quem põe a mesa para o jantar. Hoje, o mercado editorial maneja a produção literária a seu bel-prazer, com editoras e mídias especializadas valorizando os temas que melhor se vendem, escolhendo e dando prioridade a publicações identitárias ou políticas que melhor se encaixem nas exigências da moda. Um tsunami de oportunismos engoliu os antigos mitos literários, jogou nomes antes reconhecidos no cesto do esquecimento.
Nos últimos anos, o marketing dominou a literatura. A escritura foi encurralada. Em contrapartida, porém, ganhou a graça e a bendita perversão da impureza; exercitou o esfacelamento dos chamados “gêneros literários”; abandonou a rigidez dos códigos. Escritoras e escritores profissionalizaram-se, enfim. Abandonaram o ranço agonista e se adaptaram, para sobreviver em um mundo sem coração.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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