Crônica é uma escrita flutuante entre o jornalismo e a literatura. Permitam-me dar alguns pitacos sobre a existência desse pastel de vento de rápida leitura, entendimento ligeiro e breve consumação que a crônica é. Mas não considerem que estou a dar conselhos. Como diz o ditado, “se conselho fosse bom ninguém dava, vendia”.
O termo crônica vem de Chronos, velho deus mitológico do tempo, que devorava os filhos com medo de que eles lhe tomassem o trono. Cronistas são filhotes de Chronos que escaparam à devoração do pai. E, por sua vez, devoram qualquer coisa que lhes apareça à mesa. Não vale, porém, só cair de boca em um assunto qualquer. Existem modos variados de escolher e de usar. Em primeiro lugar, a dieta de cronistas é feita de “fait divers”, ou seja, de fatos corriqueiros.
O ideal é que a comida seja fresca, como queriam os aimorés que habitavam o norte capixaba e amavam devorar a carne macia dos colonizadores. Em segundo lugar, uma crônica requer o tempero da atualidade, para não ser apenas um ensopado de rememorações. Isso não quer dizer que memórias não possam fazer parte desse banquete. Pelo contrário, memórias são bem-vindas, quando o acontecimento escolhido espelha o passado conduzido ao presente, para provocar uma reflexão por parte de quem escreve ou de quem lê.
Às vezes, quando se aproxima mais da literatura de que do jornalismo, a crônica resvala na linguagem poética. O que é totalmente normal, tendo em vista que a literatura é o modo mais encantador de trapacear com a realidade. Ou então vice-versa. Existem cronistas que adotam uma escrita direta como se estivessem a registrar o assunto da maneira mais impessoal e seca possível, sem se importar com qualquer tipo de comoção.
Essa dualidade é bendita, pois faz de cronistas criaturas que oscilam em crise frequente: ou são artistas que modulam a palavra para além da mera informação e tangem o terreno da poesia; ou são seguidores do modelo jornalístico, que tecem comentários prosaicos sobre coisas que acontecem no cotidiano comum. Ainda há que considerar um conceito de crônica que se limita a cronometrar relatos históricos e efetuar um desfile de nomes, datas, feitos de reis, rainhas, mandatários, etc.
Alguns críticos mais ouriçados doutrinam ser crônica apenas o registro verídico de nosso dia a dia (aliás, coisa que se fazia em diários e, atualmente, se exibe nos blogs; ou melhor, no Instagram, TikTok, Twitter, etc). Importante, porém, é que uma crônica registre fragmentos da vida, ainda que de modo fantasioso, cobrindo a carne fria da realidade com o molho quente da imaginação.