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Crônica

Falando de cinema: em 'O Mal Não Existe', a chave de tudo é o equilíbrio

Se "Drive My Car" é tecido de sentimentos pessoais e tentativas de recomeços urbanos, em "O Mal Não Existe" o que se apresenta são histórias que vão de lances ecológicos a subtons de misticismo, até a virada final

Públicado em 

22 out 2024 às 03:30
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

"O Mal Não Existe", filme de Ryûsuke Hamaguchi Crédito: Divulgação
Se vocês viram "Drive My Car", devem esperar que o diretor Ryûsuke Hamaguchi, um queridinho atual dos fãs de cinema, continue naquele turbilhão de emoções sensíveis que garantiram o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (2022). Mas Hamaguchi parece que resolveu fazer uma espécie de “peguei o bobo na casca de ovo”, em "O Mal Não Existe" (2024).
Se "Drive My Car" é tecido de sentimentos pessoais e tentativas de recomeços urbanos, em "O Mal Não Existe" o que se apresenta são histórias que vão de lances ecológicos a subtons de misticismo, até a virada final, marcada pela inesperada brutalidade de uma mortal violência.
Tudo situado em torno uma pequena povoação nos arredores de Tóquio, que tem o dia a dia de seus habitantes ocupado em tarefas domésticas singelas e na preservação da natureza. É constante a presença de uma verde floresta, por onde Takumi, um pai, e Hana, sua filha, andam livremente e dela obtém itens necessários à existência de toda a comunidade, como madeira e água.
A floresta fornece ambiência de respeito e acolhimento à vida de pessoas, plantas e animais. É um marcador do equilíbrio entre as criaturas humanas e a natureza. Enquanto há esse equilíbrio, o mal não existe. Mas existe quando a floresta é ameaçada de destruição pelo plano de uma empresa que pretende ali fazer um “glamping”, acampamento de luxo para turistas, com retenção da água do rio e liberdade para caça e churrascos.
Por conta da ganância, da arrogância e da imbecilidade de dois representantes da empresa, em contraponto à atitude de resistência ponderada e um tanto irônica dos habitantes do vilarejo, a pegada ecológica do filme vai se evanescendo, dando lugar a uma atmosfera de suspense, bem ao gosto de filmes de horror. Com direito ao misterioso sumiço da menina Hana.
A partir daí, o desespero toma conta da tela na forma de imagens e sons. A busca por Hana prenuncia alguma coisa terrível, que culmina com a cena do cervo ameaçador postado em frente a seu filhote ferido por um tiro de caçador, como que à espera, diante da menina imóvel, sentada na relva. A brutalidade e o inconformismo que se seguem expõem o equilíbrio rompido. E a floresta, antes amável e luminosa, acaba envolvida em árvores secas, névoas sombrias e galhos escuros, enquanto Takumi, por ali carrega o corpo da filha (morta?) em uma corrida invisível aos olhos, marcada apenas pelos sons ofegantes da respiração do pai. "O Mal Não Existe" é um filme para ver e pensar. O final tenso e inconclusivo tem gosto de fúria e impotência, diante do desequilíbrio, hoje mais que nunca, existente entre a natureza e o humano.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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