Desde o início da pandemia do novo coronavírus, o governador do Estado Renato Casagrande (PSB) adotou como estratégia ouvir os diversos segmentos da iniciativa pública e privada para, a partir das proposições e dos debates entre os diferentes atores, montar o seu plano de ação para combater a Covid-19.
A coluna foi atrás de pessoas que têm participado frequentemente dessas conversas para entender o que se passa nos bastidores das reuniões e qual o tom predominante do debate.
De acordo com fontes, o clima de modo geral tem sido muito respeitoso e amistoso, mas é claro que as gafes e curiosidades da vida como ela é também estão presentes nos encontros virtuais.
Uma fonte da iniciativa privada disse que o diálogo tem sido permanente e elogiou a forma como Casagrande conduz o processo. “O governador tem sido muito aberto e transparente. Ele tem uma postura interessante de não chegar com a solução, mas de querer ouvir o que os setores têm para sugerir. Isso tem feito com que as reuniões aconteçam em um tom de muita serenidade e maturidade.”
Uma liderança que também está envolvida nas conversas para o enfrentamento da Covid-19 reforçou a disposição que o chefe do Executivo capixaba demonstra para ouvir todos os lados. “Ele escuta pra caramba. E não bate na mesa pra se impor, o que para alguns é visto como defeito. Mas a minha análise é que as reuniões estão tendo um diálogo muito saudável.”
Mesmo com toda a cordialidade que tem prevalecido nas lives, é inevitável que muitos apareçam “com o pires na mão”. Aliás, diante dos impactos severos em todas as esferas, isso está acontecendo o tempo todo, “só que alguns abusam”, como me relatou uma fonte.
"Tem interlocutores que trazem coisas irreais, sem cabimento. Aí, nessa hora, ninguém tem saco. Entendemos a dificuldade, afinal todos estamos passando por ela. Mas tem que ter noção do que pedir"
Tanto gente de dentro quanto de fora do governo diz que a fama de pidão ou de chorão já virou marca registrada entre alguns participantes dos encontros pela internet. Mas as fontes garantem que não há qualquer tipo de ânimo exaltado, mesmo quando os mais desesperados se manifestam.
Aliás, no festival dos sem noção também se enquadram aqueles que acham que estão em uma live com os amigos e esquecem que estão diante da maior autoridade do Estado. Um desses casos foi o de um líder comunitário que estava deitado na cama para conversar com o governador. “A sorte que deu um problema no áudio e aí ele não conseguiu entrar no ar”, lembrou uma fonte do governo.
Os atrasos e as interrupções nas reuniões também são comuns nesse “novo normal”. Nem todo mundo ainda se acostumou a usar as ferramentas e programas de reuniões virtuais. “Tem sempre o povo que entra atrasado, daí o áudio está aberto e sai falando em cima do governador. Ou então tem o caso de quem não sabe usar o áudio, se enrola todo, e acaba não falando nada porque não conseguiu ligar o próprio microfone.”
Entre os políticos, há o caso de um deputado federal que praticamente em todas as lives está se locomovendo. “Ele está sempre andando de carro ou com o celular correndo de lá pra cá. Nunca está parado.”
Mas não é só nos encontros sobre o enfrentamento ao novo coronavírus que as situações inusitadas aparecem. Nas lives de ordem de serviço e entrega de obras ou equipamentos, tem vereador deixando o governador no vácuo ou está querendo apenas uma atenção exclusiva. Em um dos eventos, o governo estadual mandou o convite para o presidente da câmara de vereadores e pediu que o parlamentar estendesse aos demais vereadores. “Mas ele não convidou ninguém e foi o único representante.”
O CONCILIADOR
As decisões que precisam ser tomadas neste momento de pandemia não têm sido fáceis. Conseguir atender pedidos de ordem sanitária, econômica e política é sem dúvida um dilema que o governador Casagrande vem enfrentando diariamente.
Quem acompanha de perto a construção das ações e decisões diz que, quando o governador é muito cobrado e fica em uma situação delicada, quase em um beco sem saída, ele costuma passar a bola para o próprio demandante. “Ele diz: ‘Se coloca no meu lugar. No meu lugar o que vocês fariam?!’”, revela um interlocutor ao avaliar que essa tática acaba desmontando o argumento de determinadas lideranças e reforçando que Casagrande “tem uma pegada mais política do que a de um gestor da iniciativa privada”.
Independentemente de concordar ou não com o comandante do Palácio Anchieta, políticos e empresários reconhecem que ele tem conseguindo dar voz a diversos atores. Uma fonte que acompanha o debate em outros locais diz que o diálogo em Estados como Goiás, Pernambuco e Santa Catarina é horroroso e que o Espírito Santo tem se saído muito melhor nesse quesito.
Se o governo está tomando as decisões certas, isso cada um vai avaliar da sua forma, mas os bastidores mostram que elas não estão acontecendo de forma unilateral.