Neste momento histórico que estamos vivendo, não dá para fazer a alienígena. Sim, a alienígena para mim seria uma personagem mais fácil de interpretar do que a alienada.
Eu não tenho estômago nem histórico para fazer a sonsa. Na verdade, meu ranço pelo fingimento e dissimulação é indisfarçável. Engoli muito para manter a paz, mas agora eu cuspo.
Paz é uma palavra que não existe na bandeira brasileira, mas amor, que é a única via para chegar à paz, quase existiu. Eu lembrava disso, mas estava esquecida desse meu conhecimento, aí dei um Google – preciso falar desse resgate da credibilidade em outra crônica. Confesso que também andei falando com o Claude; estamos nos conhecendo melhor há alguns meses.
O que importa é que fiz um apanhado da história do amor que faltou na bandeira brasileira para escrever esta crônica. Compartilho aqui várias informações – verificadas – sobre o tema. Por favor, não caia na armadilha de acreditar que travessões são escrita de IA. É um ser humano, com muitas dores na coluna em “dias de escrita”, que te pede.
Vamos aos fatos. Auguste Comte, filósofo francês, fundador do positivismo e do altruísmo, cunhou, em 1844, o lema "ordem e progresso" e, anos depois, ampliou-o na fórmula que defendia "o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim".
As ideias de Comte influenciaram militares e republicanos brasileiros e chegaram à bandeira nacional. Em 1889, os positivistas Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos, que conheciam bem a frase completa, levaram à frente a versão sem o amor. Perdoaremos esses dois? Perdoaremos, mas anotaremos os nomes.
Senta, porque tem mais história. O desenho da bandeira foi do pintor Décio Villares; o céu estrelado, do astrônomo Manuel Pereira Reis, que dispôs cada astro luminoso no manto azul celeste. Houve uma certa flexibilidade até para mapear o firmamento, mas não sobrou lugar para registrar o afeto como estrela-guia.
A escolha de eliminar o amor da bandeira diz muito sobre a república brasileira, que nasceu sabendo falar apenas a língua da disciplina. O amor parecia íntimo demais para um Estado que se pretendia técnico. A psicanálise ajuda a ler essa ausência. Em "O mal-estar na civilização", Freud mostra que toda cultura se ergue sobre Eros, a força que une, e ao mesmo tempo exige sua renúncia.
Tudo o que se recalca retorna. O amor que ficou fora da bandeira volta no abraço fácil, na mesa onde sempre cabe mais um, no "fica mais um pouco" que todo brasileiro conhece. Sérgio Buarque de Holanda chamou esse traço de cordialidade, de cor, coração. Não falava de bondade, e sim da tendência de regular a vida pública pelos laços da intimidade.
Noel Rosa e Orestes Barbosa fizeram da lei de Comte um samba, Positivismo, que fala sobre uma amada que desprezou essa lei. Décadas depois, Jards Macalé batizou um disco de "Amor, Ordem & Progresso" e abraçou a campanha para incluir o amor no lema da bandeira.
O amor como princípio ético de convivência me seduz muito. Voltemos à bandeira e sua história. O verde e o amarelo vieram das casas de Bragança e de Habsburgo, de Pedro I e Leopoldina, ainda que o decreto de Dom Pedro, de 1822, já falasse em verde de primavera e amarelo de ouro. E ouro não era metáfora. Foi das Minas Gerais que saíram o ouro e os diamantes que sustentaram a Coroa no século XVIII, e é de lá que ainda brotam topázios, turmalinas e águas-marinhas.
Em 2003, o deputado Chico Alencar propôs incluir amor no lema da bandeira; o projeto foi desarquivado três vezes e reapresentado em 2025. A insistência tem razão de ser: ordem sem afeto vira autoritarismo, e progresso sem afeto resulta em exclusão. Por aqui, gostamos de ouro e florestas compatíveis.
Esta crônica é uma ode ao povo brasileiro, que fala português, que faz do improviso arte, da mistura identidade e da dor canção. Devolver o amor ao lema da bandeira é reconhecer o que a maioria de nós já pratica: amor como princípio, ordem como base, progresso como fim. É fazendo valer essa escolha da maioria que a paz deixa de ser ausência de conflito e passa a ser presença de cuidado.
Sou muito grata por ser absolutamente inspirada por essa brasilidade que me invade corpo e alma. Um dos grandes amores desta minha vida, saborosa e farta, é Milton Nascimento, que acabou de completar 84 anos. Só os muitos abençoados têm dupla cidadania brasileira. Sou uma mineira-capixaba com muito orgulho e, imagino, que Milton, como carioca-mineiro, também sinta o mesmo amor intenso por esse Brasil com S de sofisticado, muito complexo e metafórico por natureza. Como diria Adélia Prado, o amor é um sentimento de luxo. A ironia é que ele está disponível a todos e, ainda assim, é raríssimo.