Tudo passa. Os dias bons voam, os ruins se arrastam, mas os dois cruzam a porta do mesmo jeito. Paixão passa. Febre e arrepio passam. Lençóis em brasa amanhecem mornos. A temperatura muda. Bate um inverno inesperado em nós. Pele fria não tem boca quente. Tremores transformam-se em calafrios. A ilusão passa.
Em "La Dolce Vita", Anita Ekberg entra na Fontana di Trevi e chama Marcello; a água escorre pelos ombros dela, e Roma inteira prende o fôlego. Então, a fonte se cala, e o encanto desce pela pedra junto com a água. Fellini não lamenta. Filma. O desejo brilha, porque acaba.
George Harrison saiu dos Beatles e, em vez de um lamento, entregou três discos sob um título que soa como oração laica: "All Things Must Pass". Nenhum rancor. Só a serenidade de quem viu o fim de algo imenso e seguiu.
A raiva passa. Antes ela queima, fecha os punhos, grita palavras que a boca depois desconhecerá. Ela, a raiva, esfriará em um cinza pálido. Se era ódio ou se era amor, como na canção italiana, passará. A dor segue em sangue. Rubra, escarlate, ainda assim, também passará feito o cinza fraco.
Se a saúde passa, a doença pode passar. O que não pode é a esperança. Essa fica. Atravessa a fúria, a dor e o desamor. Ganha fôlego depois de submergir à força, transpõe dias famintos e volta com mais apetite, mais riso, mais sede de mundo.
Insônia passa. O teto do quarto vira tela para devaneios e novas histórias. Outras imagens, novas legendas. Músicas de ninar, para embalar novos sonhos, desligam alertas antigos. A longa madrugada tem fim, e o sono chega como quem pede desculpas pela ausência prolongada.
A admiração passa. O ídolo desce do pedestal e mostra os pés de barro. Ou será que é a gente que cresce e o pedestal encolhe? Transit gloria mundi, em latim, todo papa coroado sabe que o poder é transitório. A vaidade passa, a plateia troca de ídolo, o aplauso troca de endereço. Sobra o que se fez pelos outros. Isso não passa.
Abusos passam. Mas o tempo arranca a coroa do algoz, e quem se curvou endireita a coluna. A maldade há de passar, ainda que se julgue eterna. A calúnia passa. Espalha-se como fumaça, entra pelas frestas, gruda na roupa de quem nada fez. Fumaça, porém, não tem raiz. O vento muda e derruba a difamação. E, quando a mentira passar, a verdade nua não escandalizará ninguém. Ela era esperada.
A inveja, essa tinhosa, demora a passar. Essa tristeza vestida de ódio na festa da alegria alheia um dia vai embora. O corpo, então, vai respirar mais largo, porque o contentamento do outro também é nosso: somos pedaços do mesmo todo, ondas do mesmo mar.
Interesses escusos passam. Os acordos de corredor, as alianças de ocasião, os sorrisos com prazo de validade, todos eles passarão. Até a nobreza é maré. Até a escuridão passa. Um novo dia chega. A vida vem em ondas, como disse Lulu Santos, e o rio que passou pela vida de Paulinho da Viola, todos se curvarão ao tempo rei de Gilberto Gil.
Quem passa não perde: atravessa. A vida passa, o que importa é a travessia. Tudo passa, mas, enquanto durar, que nos faça bem à pele.