O tempo cronológico faz pouco sentido para mim. Meu tempo é o dos instantes. Há instantes para os quais eu voltaria uma e um milhão de vezes. Vivi instantes que eu evitaria em todas as minhas vidas, se eu me lembrasse deles com clareza antes de repeti-los. Para a repetição do equívoco, psicanálise. Para o deleite do retorno, filosofia. Para os dois, amor pelo aprendizado.
Demorei para entender o valor de um instante. Existem conhecimentos que ficam latentes em nós e só afloram quando intencionalmente os buscamos. É preciso estar disposto a fazer um mergulho livre. Ter o ânimo das amas japonesas, que buscam suas pérolas em longas apneias.
Ter um instante para voltar dá sentido à vida. Uma extensa coleção de bons instantes é remédio para o tédio, portal de perdão e ponto de recarga de energia vital. Viver intensamente o instante com todos os sentidos é a minha máquina do tempo.
Não economizo no sentir, mesmo nos maus instantes. Voltar a eles é outra história. Para os instantes desagradáveis, psicanálise e todo o arsenal de ferramentas internas e externas que nos ajudam a moer as pedras e caminhar sobre os traumas.
A cada retorno que faço a um bom instante, amplio a minha capacidade de apreendê-lo. Dou a ele uma palavra nova, acrescento um cheiro, olho de outro ângulo. Sinto mais, para acessar melhor. Aprendi a ser bem-intencionada comigo. Meus bons instantes estão em constante crescimento dentro de mim. Não desperdiço meus momentos memoráveis.
Vou citar aqui dois instantes que eu guardo entre minhas pérolas e foram protagonizados pela mesma pessoa. São esses os exemplos de instantes que mais gosto de compartilhar. Dividir o que é raro melhora o mundo. O universo está em expansão; não precisamos nos amiudar no medo de doar. Existir é grandioso.
Em um desses instantes, eu era uma adolescente vivendo a aventura de coordenar uma cobertura de carnaval, ao vivo, para uma rádio. Na avenida, Viviane Mosé foi uma visão que me ensinou mais sobre a potência de possuir um corpo do que as animadas discussões sobre Wilhelm Reich e Foucault na faculdade.
Consigo voltar àquela cena e me observar admirando as palavras de uma mulher vulcânica sobre um carro alegórico, com um minúsculo biquíni de crochê vermelho, pelos e pele livres, samba no pé, sorriso no rosto e fome de mundo. Bebi dessa minha lembrança muitas vezes para dar poderes ao meu corpo de fêmea e à minha curiosidade de jornalista.
Muitos anos depois, ou um instante talvez, eu dirigia em uma estrada entre o mar e o pôr do sol, enquanto ouvia um curso ministrado por Viviane. Estava atravessando uma fase de luto.
De repente, fui tomada por uma emoção. Uma epifania que mudou a minha compreensão sobre perdas e ganhos. É para lá que eu volto sempre que quero alargar as bordas da minha compreensão sobre a vida.