Enquanto os homens exercem seus podres poderes, exerço o direito de preservar meu tempo para questões de política interna. Aquela política da pele para dentro. Ando muito interessada no meu discurso interior e em tudo que diz respeito diretamente aos meus três poderes: corpo, mente e alma.
Ainda que estejamos vivendo tempos distópicos, ou principalmente por isso, acho justo sair da ilha para navegar melhor meus mares internos. Bolhas? Prefiro as de sabão. Como as de Manoel de Barros, um dos meus poetas prediletos, tradutor das grandezas das pequenas coisas.
Quando a palavra está sob intenso ataque de significado, estudar nossa capacidade de inventar novas linguagens é libertador. A inocência lírica de Manoel de Barros sofreu duras críticas, mas inspirou léxicos inéditos e hoje é reconhecida mundialmente como genial e única.
Foi ao parar em frente a uma pilha de roupas que me dei conta de como é desafiante arrumar uma mala e do drama ou da comédia existencial que se instala em minutos de indecisão.
Não é fácil hierarquizar e abrir mão disso ou daquilo. A banalidade que seria arrumar uma mala me catapultou para as desimportâncias que Manoel de Barros revelou na sua poesia.
Arrumação de mala exige desapego e racionalidade. Para mim é um esforço. Drena muito da minha energia e humor. De alguma forma, a poesia cruzou meu pensamento e, quando vi, estava fisgada por um novo jeito de ver a tarefa mais enfadonha da viagem.
Andava com saudade desta capacidade de olhar de novo e fazer descobertas transformadoras naquilo que, teoricamente, já estava estabelecido.
Enquanto discutia com os meus botões o que sairia da mala, porque o excesso é um peso extra que eu não estou mais disposta a carregar, tive esta epifania ao juntar conceitos e cair nos braços da poesia de Manoel de Barros. Passei por memórias de trechos de leituras filosóficas que, hoje, fazem parte do meu pacote essencial de vida.
O poeta fala de transver o mundo; Nietzsche, o filósofo que me faz querer estudar a vida mais e sempre, fala de transvalorização dos valores. Ambos questionam a hierarquia dos valores tradicionalmente impostos.
A rigidez civilizatória insiste em desconsiderar que somos feitos para a irreastrabilidade. Controle é uma ilusão. É nos abandonando no fluxo de ideias e da vida que apuramos o olhar sobre nós e o espelho do mundo.
O olhar infantil ineditiza a vida. Ao olhar uma vez mais para a pilha de roupas, sinto uma emoção oposta à angústia da escolha. Na verdade, vejo a mala como meu pequeno território de onipotência. Escolher o que me acompanhará na viagem virou um gostoso quebra-cabeças.
Interrompi a arrumação da mala para escrever esta crônica. No processo da escrita, editando palavras, decidi retornar para a necessaire o meu perfume de cabelo, que já estava descartado da lista de itens essenciais. Que tolice a minha, retirar justamente o que me faz abrir um portal de imaginação, como olhar o caminho das formigas na grama. Revi a tempo.