Desculpa, Adélia. Perdoe este Brasil, que ainda não te descobriu. Ele anda ocupado demais com emas e problemas. Queria ser poeta e fazer rimas ricas para te enviar. Não me falta inspiração, mas não vejo em mim disciplina para estudar sobre métricas.
Também me sobra espírito crítico. Estou aprendendo a domá-lo para me permitir realizar devaneios criativos. Então cá estou, escrevendo esta carta com palavras escolhidas na pressa de um dia cheio.
Ainda não me conformei com a imperfeição da minha escrita. Sinto letras trêmulas saindo da ponta dos meus dedos, mas era urgente te escrever. Me arrisco.
Escrevo como quem passa um bilhete por debaixo da porta. São tempos duros com a ternura. Logo na minha vez de ser doce, a palavra áspera ganhou manchete e o amor precisou de disfarce.
Adélia, te levo escondida na bolsa, entre as chaves que eu nunca acho e as senhas que eu sempre perco. Mas não quero invadir seu espaço divino com essas tolices de tecnologia acima de tudo e humanidade em desuso. Meu ofício é dar notícia boa.
Toda essa narrativa introdutória é para dizer que você, além de algum anjo que eu esbarrei por aí, me inspirou a reescrever o amor. Passei os últimos anos desenvolvendo uma tese sobre um amor que eleva. Não quero te prender com explicações desnecessárias. Calei demais e agora estou muito falante. Será que é meu coração de radialista pulsando de novo? Você já trabalhou em rádio, Adélia?
Querida, te leio como quem escuta rádio clandestinamente de madrugada, volume baixinho, ouvido colado no alto-falante. Eu ouvia a Rádio Mundial assim na infância, luz apagada para meus pais não brigarem. Sempre fui um pouco insone.
Como dormir tentando decifrar as músicas de Chico Buarque, Milton e Caetano? Meu tio Tonico me alfabetizou por meio das músicas. Acho que ele era um intelectual, Adélia, mas detestaria que eu o definisse assim, então me refiro a ele como um professor. Acho elegante. Não sei que curva errada viramos em que ser um professor perdeu o glamour.
Sei que o tom da carta está muito íntimo e nem sequer fui a Divinópolis te conhecer, mas, na minha fantasia, já somos amigas. Acredito que a poesia nos permite acessar uma comunicação muito sofisticada, algo como a telepatia. De tudo que eu amo, o que eu mais amo é pensar em um mundo sem tantos ruídos desnecessários. É muito ruim ter que gritar para ser ouvido. Pior que isso, só silenciar para coexistir.
A você, Adélia, todos os louros por me indicar um caminho que equivoca a cisão platônica. Sua poesia feminina, carnal e divina, inspirou e me conduziu em uma jornada metafísica. Drummond viu o que apenas grandes homens conseguem enxergar em mulheres imensas. É nesta soma que eu aposto.
Não vou me alongar. Sempre grata por me ensinar que não é a faca ou o queijo, mas é a fome de viver que move o mundo.
Com amor,
Aurê
Ps1. Desculpe pela palavra “narrativa”.
Ps2. Esqueci de citar poema que mudou a minha visão sobre o amor.
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
‘coitado, até essa hora no serviço pesado’.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água
quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.