Não dá para deixar junho passar sem falar de amor, e de festas juninas. Comecei pensando em doces, danças e laços de fita que, logo, tomaram a forma de laços de afeto.
Houve um tempo em que eu pensei que o amor fosse uma espécie de conjunto de alfaiataria — duas peças perfeitas e encaixadas, complementares, feitas do mesmo tecido — que comunicava um estilo atemporal. Com cara de que duraria para sempre e seria um orgulho para qualquer closet.
Foram muitos os momentos em que o amor me pareceu confortável dentro do conceito fast fashion, mas houve também aquelas vezes em que ele esteve mais próximo de um uniforme, formal, sisudo. Felizmente, foram raríssimas as ocasiões em que o vi como um casaco caro e puído, daqueles que a etiqueta não vale o custo do conserto.
Do ponto em que olho para o amor, hoje, ele está mais próximo de um blazer listrado com calça xadrez. Uma combinação pouco detectável por algoritmos, bem-humorada, surpreendente, cheia de bossa, autoral e musical, como uma outra identidade criada pela junção de sujeitos atuantes, que escrevem histórias através da arte de amar. Longe de ser clichê, o amor é arte. Só a vivência dele o traduz, e isso nenhuma palavra abarca.
O amor, para além do narciso, nos obriga a sair de nós mesmos, a nos abrir para o outro de uma maneira que revela tanto nossas fragilidades quanto nossas forças. Uma dança delicada entre manter-se e perder-se.
Amar sofistica. Cada interação, cada momento compartilhado, adiciona uma nova camada à construção de uma consciência conjunta expandida. Usufruir as verdades que o amor traz faz mais sentido que a busca obsessiva pelo amor verdadeiro.
O amor não é um contrato estático, mas uma obra viva que respira e evolui com o tempo. Não oferece respostas fáceis, traz novas perguntas.
Há algo de profundamente subversivo no ato de amar, de desafiar a lógica do descartável e cavar fundo na argila humana. O amor não se contenta com a pele. Ele adentra camadas intocadas.
Aquilo que parece uma escavação arqueológica nos revela não apenas tesouros, mas também ossos, vestígios de antigos desastres, memórias enterradas. Amar alguém é aceitar seu passado, suas cicatrizes, e encontrar beleza nos fragmentos quebrados. Não há espaço para idealizações. O amor é brutal em sua honestidade.
Na linguagem dos amantes, há uma gramática própria, uma sintaxe que desvia da linearidade para abraçar a complexidade. Cada dia é um novo verso em um poema inacabado, onde rimas e rupturas coexistem.
Como a viagem sem garantias que é, o amor aposta no improvável, faz um salto de fé. O amor é a antítese do óbvio, a única promessa de transcendência.
O amor muda de forma, porém, dura, permanece. Não é rígido como pé-de-moleque, nem frágil feito paçoca, que do nada esfarela tudo.