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Sextas Crônicas

Da lama ao lótus

Bonito mesmo foi ver surgir, no meio da lama, as flores de lótus, um enorme movimento de ajuda humanitária cidadã e apartidária. Grupos de voluntários organizados surgiram por todas as partes do país para ajudar o Sul, desde o primeiro momento

Publicado em 31 de Maio de 2024 às 01:20

Públicado em 

31 mai 2024 às 01:20
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Este ano, maio durou meses. Nem a luz privilegiada do outono, que faz as manhãs e as tardes se encaixarem na mais linda das paletas, do amarelo claro ao laranja intenso, deu conta de blindar a beleza de maio.
Teve aniversário - inclusive o meu - dia das mães, noivados, casamentos, viagens, eventos, mas nada retirou o véu de melancolia deste maio.
O meu inferno astral passou de antes para depois do aniversário, que abriu o mês com o Dia do Trabalho. Foi trabalheira mesmo. Nada de balões de festa. Só bombas. Grandes tragédias deixaram o coração aos cacos, pequenos contratempos, mal-entendidos chatos, viroses e gripes estavam no combo.
Definitivamente, um mês que jogou os níveis de paciência e imunidade para baixo.
Enquanto águas arrasavam o Sul, muitas reputações de políticos e cidadãos, sem noção, foram enlameadas pela ausência de humanidade, infelizmente, nada que o pano do interesse e do oportunismo não limpe. Somos um país com memória curta.
Bonito mesmo foi ver surgir, no meio da lama, as flores de lótus, um enorme movimento de ajuda humanitária cidadã e apartidária. Grupos de voluntários organizados surgiram por todas as partes do país para ajudar o Sul, desde o primeiro momento, a despeito do negacionismo ou notícias falsas. Nessas horas, dá orgulho ser brasileiro.
Guarnição composta por 12 bombeiros e um cão de busca e resgate do Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo (CBMES) chegou ao Rio Grande do Sul e já se apresentou ao comando local no sábado (18)
Guarnição composta por 12 bombeiros e um cão de busca e resgate do Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo (CBMES) foi ao Rio Grande do Sul Crédito: Divulgação CBMES
Pessoas estiveram e ainda estão até se colocando em risco para salvar vidas. Isso inspira, traduz o espírito do voluntariado, de optar por contribuir. Claro que no meio terão os oportunistas, essa praga que marca presença em qualquer situação crítica para tirar proveito próprio. Mas o brasileiro bem-intencionado, unido, se virando para enviar água, comida, roupa, cobertores etc, continua fazendo história. Ver os concorrentes paulistas pararem suas produções para socorrer os produtores de sapato de Franca deu esperança em um futuro menos umbilical e mais coletivo. Estou curiosa para ver o grande movimento que as indústrias farmacêuticas farão, agora, que o drama das doenças provocadas por água contaminada vai explodir.
O que vem pela frente não é animador para os gaúchos, serão meses e anos de dor e reconstrução. A esperança é que os grupos de flores de lótus façam a diferença ajudando e divulgando essa tragédia climática. Como diz Emicida: tudo que nóis tem é nóis.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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