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Sextas Crônicas

O amor da nossa vida vai morrer

Entre o arrependimento e o remorso, habitam as dores do que deixamos de viver — e os amores que não tivemos coragem de reconhecer

Públicado em 

17 out 2025 às 03:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

declaração de Al Pacino sobre ter desperdiçado as chances com o amor da sua vida, ao saber da morte de Diane Keaton, ficou rondando meus pensamentos esta semana. Até onde li, ele usou a palavra remorso. Mas, confesso que, desta vez, não fui atrás de pesquisar tudo o que foi dito pelo ator. Fiquei tocada pela aspereza de remorso. Uma palavra bruta. Bastou-me ela.
Muito mais profundo que o arrependimento, o remorso se aloja na carne, como uma marca que não se cura, um eco constante de uma música cuja melodia não se entende mais. O arrependimento surge como um aviso, é mais racional, quase previsível. O remorso é denso, corpo e memória, é sentir no peito, nos ossos, na respiração, a dor de algo que não se pode desfazer. Arrependimento dá chances, claro, apenas para os que o admitem. O remorso tem o peso de uma sombra. Tem a forma de uma oportunidade perdida, algo se retirou para sempre de nós.
Pessoa triste em luto
Pessoa triste: o remorso tem o peso de uma sombra Crédito: Freepik
O objeto que caiu no fundo de um poço, o brinco no ralo do banheiro, assim é o remorso, irresgatável. Ele não perdoa, não negocia, nos obriga a carregar a presença de uma ausência. Quem já teve a sensação de tentar segurar um fio invisível de um instante perdido sabe do que estou falando. A palavra não dita, o abraço que não aconteceu, o amor que não ousamos reconhecer, todos doem. Diferente do arrependimento que, quando chega à consciência, nos permite ação e correção, o remorso é irremediável. É pesado. Seu caráter irreversível é uma lição que não se aprende sem passar pela dor.
Há quem não admita sequer arrependimento, quem dirá remorso. Por isso, quase sempre eles são silenciosos e ficam escondidos em cantos do cotidiano. Al Pacino, do alto do ser que é, admitiu e lamentou seu remorso. Expôs essa palavra incômoda, que repeti aqui como um pisca-alerta.
Cada remorso é uma história truncada, uma vida paralela que poderia ter sido, mas não foi. O amor da nossa vida ou a ilusão de que poderíamos reconhecê-lo passa diante de nós como um filme mudo, e não há como alterar a cena.
Nossos sentimentos reprimidos nos perseguem em silêncio. Pode ser que permaneçam assim para sempre. Instantes não vividos são feridas sem chance de cicatrizar na totalidade. São queloides na alma. Para que jamais apareçam, exigem uma vida às escondidas da própria alma nua.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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