O amor é inútil. Tal como a arte. É uma falácia dizer que ama-se alguém por aquilo que ele traz para a sua vida. Não é o colorido ou o cinza do outro que matiza o nosso amor. Tão nosso e tão farto, o amor não faz pose e não exige posse. Possui a si, pratica o verbo amar e isso basta. Tudo de estranho cabe ao amor tornar familiar, porque o resultado do amor é uma onda inexplicável de pertencimento genuíno. Amar acalma. Na sintonia refinada do amor, só se capta o som da alegria. Tudo contrário à alegria, no amor, é ruído.
Como explicar, como dimensionar que essa inutilidade, no sentido prático da palavra, seja capaz de mudar o mundo? Ou melhor, seja a única via capaz de mudar o mundo.
É pelo amor que se chega à paz. Um coração que se fecha ao amor pertence a uma mente beligerante, não importa o semblante que faça. Jamais, em tempo algum, produzirá paz, porque falta-lhe o elemento básico que é o amor.
Mas o amor está aí, em abundância, esperando um olhar mais demorado, uma escuta atenta, uma aposta no que pode nos fazer menos úteis e mais amados e amantes.
“Minha afeição é como um mar sem fim, meu amor tão profundo, mais eu dou, mais eu tenho, pois são ambos infinitos.” Esse manifesto ao amor pertence ao escritor e dramaturgo inglês Willian Shakespeare.
Fico pensando em como saímos das odes ao amor abundante e chegamos ao ápice dos tempos ruidosos? Saímos de “não existe amor em SP”, do Criolo, para um desamor generalizado no mundo. O ódio viralizado normalizou conexões utilitárias entre almas vazias. Mas é o adoecimento que trará o amor como assunto urgente, com novas roupagens, novos conceitos, novas práticas.
Olhamos durante muito tempo para os vazios da maldade, e de lá nada de bom poderá sair. Mas é mesmo à beira do precipício que podemos dizer não ao entorpecimento pelo abismo e dar passos para abrir novos caminhos. Escolhas. Sempre elas. Nunca se sabe em que esquina está o abismo que te fará despertar e desviar o olhar para buscar novos caminhos. Portanto, nem deles (os abismos) é bom fugir.
Amor é uma energia livre. Não a procure, vibre e ela te achará. Como um filho acha o seio da mãe. A mesma mãe, que, sob as custas de muita análise, entende que terá sido suficientemente boa quando não for mais útil e continuar sendo amada.
O manifesto “A Utilidade do Inútil”, do filósofo italiano Nuccio Ordine, traz um trecho escrito pelo francês Saint-Exupéry sobre o amor, que resume muito esta crônica, que escrevi para Alessandra e Antonio, respectivamente, minha nora e meu filho.
“Não confundas o amor com o delírio de posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer”.