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Sextas Crônicas

É tempo de Caetanear o que há de bom

O careta não enxerga. Ele olha, mas não vê. É matéria descartável, porque não possui alma salivante. O careta é ressequido, tem uma engrenagem psíquica truncada

Públicado em 

11 ago 2023 às 01:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

O cantor e compositor Caetano Veloso
O cantor e compositor Caetano Veloso Crédito: Aline Fonseca/Divulgação
Recôncavo é praia miúda de mar de pertencimento. Quem é de lá sabe. É preciso espraiar-se em si e abrir-se ao mundo para ser reconvexo. Neologizar-se. Expandir-se é ampliar o mistério em si. Não restringir-se é futurar-se. Esse apalavrado cheio de ineditismo Caetano já sabia. Nos anos 80, já dizia isso.
Na semana do nascimento de um gênio, surge um careta separatista. Que sina. Que dó da gente.
O careta não enxerga. Ele olha, mas não vê. É matéria descartável, porque não possui alma salivante. O careta é ressequido, tem uma engrenagem psíquica truncada. Nada flui, porque ele não produz lubrificação. Para o careta não há cuspe que alivie.
O que nos salva da caretice é a arte, que equivoca, que faz finta. No pique-pega da vida, o careta cai, se espatifa, e a arte passa e ri. Só ri. E basta.
O que dizer sobre os novos caretas, esses velhos tipos? Os castanhos lábios das nossas almas emudecem de desprezo. Nada a declarar. Nem sequer pronunciamos nomes que, em breve, estarão de saída da história.
Caetano, aos 81 anos, continua, continuará divino e maravilhoso. Sexy, como Mick Jagger, uma dura realidade para os donos de ferraris barulhentas, bíceps aditivados e adoradores de caretas assépticos. Caetano é São Jorge e é neguinha, ao permitir-se, permite. É mensageiro do Divino. Traz na sua presença a arte que faz de cada um de nós infinitos e imortais, como desejamos todos nós, até os caretas.
Reconvexo é um neologismo criado por Caetano para Bethânia, como um abraço de irmão diante da acidez do jornalista Paulo Francis, crítico do povo e da cultura baiana encarnados em Caetano. Para reflexões rasas, nada como a soberania e a complexidade rítmica de um samba de roda.
O crítico, senhor de visão restrita, é recolocado no lugar que lhe cabe, o de incapaz de alcançar o significado da arte exposta e atrevida. O bobo preconceituoso é o centro na roda do pique. Nenhum elogio sincero, nenhum olhar sofisticado. Tropeça em si oferecendo o que tem: sua alma rude e palavras ocas de sentido.
Nós, brasileiros, falamos através de um quadradinho de oito. Quem traduz essa língua? De quantos Simones Susinnas se faz uma Anitta? Joãosinho Trinta levou o luxo para o carnaval e Edu Lyra vai levar a favela para o museu, quem explica isso só complica. Quem disse que Andy Wahol não compartilhou um acarajé com Dona Canô?
Existem saberes que são visíveis apenas aos olhos que se abrem ao mistério. Os idiotas são fabricados em série, como gremlins. A cada esquina encontramos um. Já um Caetano demora séculos para acontecer. É um amor delicado do universo com o humano, não se despreza. É preciso leveza, pisar devagarinho, para entender esse tempo de espalhar benefícios.
Um bando de caretas não pega um único gênio, porque sequer chega a vê-lo. Um cego no castelo só existe porque bobos-da-corte aplaudem. Dá raiva, mas dá arte também. Um trem das cores que rompe o cinza da ignorância de arrogantes-preconceituosos-separatistas é luz no fim do túnel. É possível fazer da raiva e da indignação uma arte que contradiz o maldito.
Caetano viu a cegueira de Francis e fez arte disso. Fez por raiva dele e amor a Bethania. Deu no que deu: toda vez que surge um careta desavisado querendo retirar a Bahia do mapa, o samba de roda desce a ladeira do Pelô e reconcâvo encontra o reconvexo. É o maior espetáculo da terra.
Viva Caetano, compositor de destinos, que sua luz ilumine nosso caminho daqui até pra lá de Marrakesh.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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