A região da Ponta de Tubarão foi referenciada nos primeiros mapas coloniais e nas cartas de navegação elaborados após a invasão portuguesa. Antes da fixação do nome atual, a formação geográfica que marca a foz norte da Baía de Vitória era assinalada pelos cartógrafos e navegadores (incluindo as expedições de 1501), como Ponta de Piraém.
A expressão Tubarão consolidou-
Ao celebrar os 60 anos do porto construído na Ponta de Tubarão, a Vale optou por denominar a área, simplesmente, como Unidade Tubarão. Nomes geográficos não são simples etiquetas. Eles condensam memórias, identidades, modos de vida e relações históricas com o território.
Quando uma empresa passa a utilizar um desses nomes, como se fosse sinônimo de suas instalações produtivas, ocorre uma espécie de redução simbólica do lugar. A geografia deixa de ser entendida como patrimônio coletivo e passa a ser percebida como extensão de um empreendimento econômico.
A transformação da Ponta de Tubarão em grande corredor de exportação mineral, iniciada na década de 1960, representou uma das mais profundas intervenções territoriais da história do Espírito Santo.
A construção do porto alterou paisagens, ecossistemas e dinâmicas urbanas. Por um lado, o projeto integrou o estado a uma estratégia nacional de exportação de commodities não renováveis, ampliando a capacidade logística do Brasil e fortalecendo a presença da então Companhia Vale do Rio Doce.
Por outro, os benefícios econômicos vieram acompanhados de custos sociais e ambientais que permanecem objeto de debate. Há décadas moradores da Grande Vitória convivem com problemas relacionados à poluição atmosférica provocada pelo manuseio e armazenamento de minério de ferro e carvão.
O chamado 'pó preto' tornou-se uma das mais conhecidas expressões dos conflitos ambientais urbanos capixabas. Diversos estudos, mobilizações populares e ações institucionais apontaram os impactos dessa atividade sobre a qualidade ambiental e a saúde da população.
É justamente por essa razão que a tentativa de fundir, simbolicamente, a Ponta de Tubarão com a identidade corporativa da Vale merece reflexão crítica. Por um lado, a empresa detém o direito de celebrar sua trajetória industrial. Por outro, esse direito está longe de incluir o monopólio do significado de um lugar, cuja existência histórica antecede em séculos sua chegada ao território.
Entretanto, a questão ultrapassa o campo da nomenclatura. Trata-se, afinal, de uma disputa pela memória. Quando uma campanha institucional apresenta Tubarão como uma unidade operacional, torna invisível as raízes históricas daquele território.
Dentre essas, destacam-se a dos povos originários que habitaram a região; a das comunidades pesqueiras que dela dependeram; a dos movimentos sociais que seguem denunciando os impactos ambientais; e a dos cidadãos que continuam reivindicando uma relação minimamente equilibrada entre crescimento empresarial e qualidade de vida da população.
Por isso, a celebração dos 60 anos do porto precisa vir acompanhada pelo reconhecimento da complexidade de sua história. Isso incluiria valorizar a memória do território anterior à industrialização, reconhecer os impactos ambientais acumulados, ouvir as comunidades afetadas e reafirmar que os nomes dos lugares carregam significados que não podem ser privatizados.
A Ponta de Tubarão é parte da geografia, da cultura e da história capixabas. O porto é uma obra humana construída sobre ela. Confundir uma coisa com a outra significa permitir que a lógica corporativa substitua a memória coletiva. E uma sociedade que abre mão de seus lugares de memória corre o risco de perder parte de sua própria identidade.
As campanhas publicitárias da Vale objetivam e buscam apresentá-la como promotora de sustentabilidade e da cultura nos territórios onde atua. Sempre ignoram que grande parte dos custos de seu modelo de crescimento empresarial foram socializados.
Reconhecer o desbalanceamento entre lucros empresariais e custos sociais, em nada diminuiria a importância estratégica do porto. Pelo contrário, demonstraria maturidade institucional e respeito pela sociedade que convive, há seis décadas, com os impactos socioambientais negativos do empreendimento.
Dentre esses custos está o ‘pó preto’ que, há décadas, compromete a qualidade de vida e a saúde de moradores da Grande Vitória. Trata-se de um dos maiores símbolos de um modelo de crescimento que subordina o bem-estar coletivo aos imperativos da produção e da exportação.
A sociedade também arca com os ônus das alterações provocadas pelos piers instalados em Tubarão, na dinâmica costeira e nas correntes marinhas da região da Grande Vitória. São seguidas alterações, cujos efeitos podem ser observados na crescente erosão de trechos do litoral e na necessidade, cada vez mais frequente, de intervenções públicas.
Dentre essas, desde os anos 1970, destaque para o chamado 'engordamento' das praias. São intervenções cujas despesas são socializadas por toda a população capixaba, enquanto os benefícios financeiros obtidos pela Vale se concentram em um número pequeno de acionistas, em sua maioria de fora do estado.
E não há como falar da história recente da Vale sem lembrar o rompimento da barragem em Brumadinho - MG, um dos maiores crimes socioambientais da história brasileira. Seus impactos ultrapassaram os limites de Minas Gerais, invadindo toda a bacia do Rio Doce e a costa capixaba, onde comunidades, ecossistemas e atividades econômicas continuam convivendo com severas consequências que desafiam qualquer tentativa de caracterização e mensuração completas.
Por isso, celebrar décadas de atividades da Vale em Tubarão exige mais do que exaltar indicadores de produção, toneladas embarcadas ou resultados financeiros. Exige reconhecer que a história do empreendimento é inseparável da história dos territórios e das populações afetadas por suas operações.
A Ponta de Tubarão não é uma marca empresarial. É um lugar de memória coletiva, pertencente ao patrimônio do povo capixaba. E nenhuma estratégia de comunicação, por mais sofisticada que seja, pode apagar o fato de que o verdadeiro legado de um empreendimento não se mede apenas pela riqueza que produz, mas também pela capacidade de assumir responsabilidades pelos impactos socioambientais negativos que gera.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião de A Gazeta