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Meio ambiente

Tão grave quanto o crime é o cinismo do criminoso

O assassinato de pessoas (muitas vezes da própria família); a corrupção com recursos públicos e a sonegação de impostos; o desrespeito a direitos humanos; o descuido para com a natureza, entre outros, são tratados por quem os comete como algo banal

Públicado em 

14 dez 2023 às 01:30
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Causa estranheza e indignação a quem assiste pelos meios de comunicação o cinismo de quem comete crimes. O assassinato de pessoas (muitas vezes da própria família); a corrupção com recursos públicos e a sonegação de impostos ao erário (dois lados da mesma moeda); o desrespeito a direitos humanos; descuido para com a natureza, entre outros, são tratados por quem os comete individualmente ou enquanto empresa como se fosse algo absolutamente banal.
O ocorrido em Mariana, em 2015; em Brumadinho, em 2019; e em Maceió ainda em curso, da forma como continuam sendo tratados - respectivamente, pela Samarco, pela Vale e pela Braskem - com cinismo inaceitável. Cinismo que aflora pelas justificativas ‘técnicas’ que buscam apresentar desde o acontecido até o presente. Cinismo que se coloca pela forma como buscam proteger seus interesses financeiros usando todas as artimanhas jurídicas possíveis para se eximirem e/ou adiarem o cumprimento de obrigações para com atingidos.
No caso específico a Vale (sócia da BHP com participação igual na Samarco) que também é uma poluidora do ar e das águas do Espírito Santo, principalmente na Grande Vitória, o cinismo ainda se amplia. Amplia-se na medida em que busca manter uma imagem positiva junto à população através do mecanismo de ‘tintura verde’ (em inglês green washing). Anúncios em grandes veículos de comunicação; obras e serviços realizados como compensação ambiental; outdoors espalhados pelas cidades a apresentam como uma empresa preocupada com as pessoas e com o meio ambiente.
Patrocínio de atividades culturais (já que o Museu Ferroviário foi fechado) e outros são realizados com o objetivo maior de criar uma cortina de fumaça verde (em contraste com a de suas chaminés) e apresentar a empresa como social e economicamente responsável pelo crescimento do estado.
Isso tudo com a conivência de boa parte dos diversos meios de comunicação que publicam seus anúncios majoritariamente falsos e que exercem pouco as funções de jornalismo investigativo. Com a conivência dos poderes públicos constituídos pouco assertivos na fiscalização, na punição e no cumprimento das obrigações ambientais, sociais e financeiras da empresa.
Contra essa cultura da conivência felizmente existe a arte contestatória. No plano local, Kleber Galveas vem há anos registrando através de seu talento artístico o que a Vale faz com ar da Grande Vitória. O carnaval de Vitória no passado registrou seu protesto através do bem humorado bloco ‘Não Vale cheirar pó’.
No plano internacional, foi recentemente anunciado pelo jornal inglês The Guardian o lançamento do documentário ‘The safest place in the world’ (literalmente 'o lugar mais seguro do mundo'). Em sua resenha do documentário de Aline Lata e Helena Wolfenson, o reconhecido jornal faz menção tanto a aspectos da forma e intensidade com que a barragem foi rompida quanto aos mais diversos mecanismos usados pela empresa para censurar qualquer atividade que registre sua (ir)responsabilidade com o acontecido antes, durante e depois do rompimento.
Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), atingido pelo rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco
Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), atingido pelo rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco Crédito: Antonio Cruz/ Agência Brasil
Para além das diversas maneiras como o acontecido já foi registrado em relatórios técnicos e em ações judiciais por autoridades públicas representando interesses dos atingidos, o documentário dá voz e vez à tragédia humana dos que sofreram perdas irreparáveis. Segundo a resenha, em tradução pelo Google tradutor:
“Ficando perto do carismático morador local Marlon, o filme de Aline Lata e Helena Wolfenson captura seu comovente vínculo com sua casa ancestral - agora um naufrágio coberto de sedimentos - bem como com a bela paisagem de Bento Rodrigues”.
Mais grave do que o causado a comoventes vínculos ancestrais e com a bela paisagem tanto de Bento Rodrigues quanto de todo o Vale do Rio Doce e Costa Capixaba, é o cinismo como a Vale/Samarco continua tratando aquilo por ela provocado.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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