Causa estranheza e indignação a quem assiste pelos meios de comunicação o cinismo de quem comete crimes. O assassinato de pessoas (muitas vezes da própria família); a corrupção com recursos públicos e a sonegação de impostos ao erário (dois lados da mesma moeda); o desrespeito a direitos humanos; descuido para com a natureza, entre outros, são tratados por quem os comete individualmente ou enquanto empresa como se fosse algo absolutamente banal.
O ocorrido em Mariana, em 2015; em Brumadinho, em 2019; e em Maceió ainda em curso, da forma como continuam sendo tratados - respectivamente, pela Samarco, pela Vale e pela Braskem - com cinismo inaceitável. Cinismo que aflora pelas justificativas ‘técnicas’ que buscam apresentar desde o acontecido até o presente. Cinismo que se coloca pela forma como buscam proteger seus interesses financeiros usando todas as artimanhas jurídicas possíveis para se eximirem e/ou adiarem o cumprimento de obrigações para com atingidos.
No caso específico a Vale (sócia da BHP com participação igual na Samarco) que também é uma poluidora do ar e das águas do Espírito Santo, principalmente na Grande Vitória, o cinismo ainda se amplia. Amplia-se na medida em que busca manter uma imagem positiva junto à população através do mecanismo de ‘tintura verde’ (em inglês green washing). Anúncios em grandes veículos de comunicação; obras e serviços realizados como compensação ambiental; outdoors espalhados pelas cidades a apresentam como uma empresa preocupada com as pessoas e com o meio ambiente.
Patrocínio de atividades culturais (já que o Museu Ferroviário foi fechado) e outros são realizados com o objetivo maior de criar uma cortina de fumaça verde (em contraste com a de suas chaminés) e apresentar a empresa como social e economicamente responsável pelo crescimento do estado.
Isso tudo com a conivência de boa parte dos diversos meios de comunicação que publicam seus anúncios majoritariamente falsos e que exercem pouco as funções de jornalismo investigativo. Com a conivência dos poderes públicos constituídos pouco assertivos na fiscalização, na punição e no cumprimento das obrigações ambientais, sociais e financeiras da empresa.
Contra essa cultura da conivência felizmente existe a arte contestatória. No plano local, Kleber Galveas vem há anos registrando através de seu talento artístico o que a Vale faz com ar da Grande Vitória. O carnaval de Vitória no passado registrou seu protesto através do bem humorado bloco ‘Não Vale cheirar pó’.
No plano internacional, foi recentemente anunciado pelo jornal inglês The Guardian o lançamento do documentário ‘The safest place in the world’ (literalmente 'o lugar mais seguro do mundo'). Em sua resenha do documentário de Aline Lata e Helena Wolfenson, o reconhecido jornal faz menção tanto a aspectos da forma e intensidade com que a barragem foi rompida quanto aos mais diversos mecanismos usados pela empresa para censurar qualquer atividade que registre sua (ir)responsabilidade com o acontecido antes, durante e depois do rompimento.
Para além das diversas maneiras como o acontecido já foi registrado em relatórios técnicos e em ações judiciais por autoridades públicas representando interesses dos atingidos, o documentário dá voz e vez à tragédia humana dos que sofreram perdas irreparáveis. Segundo a resenha, em tradução pelo Google tradutor:
“Ficando perto do carismático morador local Marlon, o filme de Aline Lata e Helena Wolfenson captura seu comovente vínculo com sua casa ancestral - agora um naufrágio coberto de sedimentos - bem como com a bela paisagem de Bento Rodrigues”.
Mais grave do que o causado a comoventes vínculos ancestrais e com a bela paisagem tanto de Bento Rodrigues quanto de todo o Vale do Rio Doce e Costa Capixaba, é o cinismo como a Vale/Samarco continua tratando aquilo por ela provocado.