Correção
30/06/2022 - 7:10
A versão anterior deste artigo informava de forma equivocada que a Vale é fiel depositária da Reserva de Sooretama. No entanto, a reserva citada é de responsabilidade do ICMBio. A Reserva Natural da Vale fica anexa à Reserva de Sooretama. O texto foi corrigido.
É consenso que a humanidade passa por três riscos sistêmicos: o aquecimento global, a extinção de espécies e a redução da população daquelas que sobrevivem e a contaminação de seres vivos. As evidências científicas para esses riscos são aceitas pelas mais diferentes organizações: da ONU ao Fórum Mundial Social e o de Davos; do papa e sua economia de Clara e Francisco ao movimento de jovens como Greta Thunberg em escala mundial.
A ação a partir dessa aceitação é que difere entre os diversos agentes políticos, econômicos e sociais. Mesmo as agendas conservadoras acordadas desde 1995 nas quase trinta conferências mundiais sobre o clima promovidas pela ONU são sistematicamente desconsideradas por governos que as subscrevem.
O sistema financeiro concorda com o impacto nocivo sobre o meio ambiente da cadeia produtiva do petróleo, mas continua financiando-a. A indignação de jovens, povos nativos e ambientalistas diante dos crimes ambientais que são cometidos, quando muito, é registrada em audiências públicas.
A lenta implementação de ações em escala mundial voltadas para a reversão de tendências catastróficas para a espécie humana precisa de duas respostas. A primeira, em escala global, o continuado ativismo político voltado para as diversas dimensões da crise, dentre as quais, a necessária maior participação financeira na sua solução por parte dos países que mais contribuíram e contribuem para com a situação que a humanidade precisa enfrentar logo. E o destino prioritário para essa compensação tem que ser a de territórios que mais sofreram e sofrem os efeitos perversos dos mais diferentes processos de colonização, com destaque para a África, a América Latina, a Ásia e a Oceania.
A segunda resposta tem que ser buscada em ações localizadas em nível dos países e seus territórios. Toda e qualquer ação em escala federal, estadual e municipal no Brasil, por exemplo, precisa levar em consideração o quanto contribuirá para aumentar ou diminuir os riscos sistêmicos globais.
Nesse sentido, vale a pena examinar duas notícias veiculadas por este jornal no dia 15 deste mês de junho. A primeira, de Vilmara Fernandes, registra que pesquisadores da Ufes contabilizaram 96 animais mortos em um único dia ao longo dos 14 km que a BR 101 corta a Reserva de Sooretama. Esse dado deveria ser suficiente para que governos e prefeituras da região se mobilizassem contra a anunciada proposta de duplicação da rodovia naquele trecho.
A segunda, de Natalia Bourguignon, relata a possibilidade da duplicação da BR 262 no Espírito Santo usar recursos alocados aos governos de Minas, Espírito Santo e federal pelas perdas causadas pela lama da barragem de Mariana. Ou seja, compensação financeira acordada pelo crime ambiental ocorrida há quase sete anos seria utilizada para ampliar ainda mais os riscos sistêmicos provocados pelo uso de combustíveis fósseis. Em outras palavras: as perdas causadas pela lama da barragem de Mariana seriam compensadas com maior consumo de derivados de petróleo que produzem gases que poluem a atmosfera.
Mesclar pensamentos, palavras e obras no âmbito global com aquelas que podem se dar em territórios mais próximos de onde vivemos é fundamental. No perigoso incêndio pelo qual passa a humanidade, há espaço tanto para sofisticados equipamentos necessários para os riscos agregados em escala mundial quanto para as pequenas latas d’água e aceiros para evitarmos mais um foco de fogo.
É hora de no Espírito Santo serem fomentadas ações para que a Reserva Sooretama seja preservada e valorizada como patrimônio de todos e para que a compensação pelo crime de Mariana seja dirigida para projetos que portem futuro para os capixabas.