Entre as questões que desafiam a sociedade desde o final do século passado, duas têm proeminência na medida em que cada vez mais fazem parte do dia a dia de todos: a crise climática e a oferta de alimentos saudáveis. Independentemente de raça, gênero, credo, renda, nível educacional e ideologia política, objetiva ou subjetivamente, elas se colocam como incertezas para o curto, médio e longo prazos dos humanos que habitam a Mãe Terra.
A busca de enfrentamento dessas questões faz parte há décadas de agências multilaterais que buscam agir globalmente. Estão aí as conferências das Nações Unidas que desde 1972 discutem meio ambiente, clima e sustentabilidade socioambiental. Estão aí os diversos programas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimento que há muito buscam encaminhar soluções para a segurança e a soberania alimentar dos povos do mundo.
Já se sabe que essas e outras iniciativas em escala global são eivadas de boas intenções que sempre esbarram em interesses geopolíticos e especificidades das economias, principalmente das chamadas grandes potências. Ou seja, aprofundam o conhecimento sobre questões que a cada ano aumentam de urgência mas pouco conseguem evoluir no efetivo enfrentamento dessas urgências.
De forma semelhante, na escala de países como o Brasil e de seus estados, propostas de legislação, implementação de agências reguladoras/fiscalizadoras, estabelecimento de políticas públicas, dentre outras medidas, têm gerado resultados de baixo impacto. Interesses econômicos envolvendo questões como sustentabilidade socioambiental e acesso a alimentos saudáveis acabam por tornar morosos os processos legislativos e de baixa efetividade os de regulação/fiscalização.
Nesses níveis a participação da sociedade na busca de soluções, na maioria da vezes inexiste ou é mascarada por audiências públicas do tipo faz de conta. Razão pela qual o que foi conquista no passado hoje é mais um mecanismo do mudar para continuar como sempre foi.
Sensibilizar pessoas para ações sobre temas que as afligem, ainda que subjetivamente, passa cada vez mais por políticas socialmente construídas que criem oportunidades para o colocar a mão na massa na solução de questões que afetam a todos. Afetam a todos em graus diferentes por isso a importância de serem estudadas tecnicamente e discutidas politicamente no âmbito das cidades.
Exemplos da busca de soluções em âmbito mais próximo de onde as pessoas habitam para questões urgentes – como emergência climática e alimentação saudável - podem ser encontrados em diversos lugares. Recentemente, por exemplo, Paris deu sequência a uma série de medidas que a prefeita Anne Hidalgo adota desde que chegou ao cargo em 2014.
Em referendo no dia 23 de março último, praticamente dois entre cada três cidadãos que votaram apoiaram a iniciativa de banir carros de quinhentas ruas que serão transformadas em áreas para pedestres arborizadas.
Neste mês de março também foi lançado em Curitiba o trabalho ‘Os caminhos da comida: o papel do planejamento urbano na transformação do sistema alimentar’. O estudo é fruto da parceria do Instituto Escolhas (associação civil sem fins lucrativos, fundada em 2015 para qualificar o debate sobre sustentabilidade socioambiental), o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba e a prefeitura da capital paranaense. Investiga como os municípios da Região Metropolitana de Curitiba e do litoral paranaense podem “...aproveitar avanços identificados nesse território e solucionar os múltiplos desafios ainda presentes no sistema alimentar da região analisada”.
Esses são exemplos de como podem ser aprofundadas e ampliadas políticas públicas que vêm sendo construídas e operacionalizadas há décadas. Há décadas, mas que começaram em algum momento. Exemplos que podem ser seguidos por municípios da Grande Vitória e de todo o Estado, contempladas as especificidades de cada um, seja pelo porte, seja formação socioeconômica e tantas outras razões.
O importante é que comecem já e que aprofundem e ampliem o que já vem sendo feito. O fundamental é que esse seja um processo em que ampliem-se as possibilidades de participação popular. E mais, que a sua condução política se dê de forma a permitir o debate amplo entre áreas e conteúdos de saberes (populares e científicos) e entre visões alternativas sobre o que se quer para o território específico.