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Meio ambiente

APA da Foz do Rio Doce: o ES com outra agenda de desenvolvimento

A criação da área de proteção e a implantação de um campus do Ifes em Regência precisam ser mais do que atos administrativos. Devem representar um compromisso  com um novo modelo de desenvolvimento para a formação socioeconômica capixaba

Publicado em 20 de Março de 2025 às 03:30

Públicado em 

20 mar 2025 às 03:30
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Há cerca de dois anos em discussão com os diversos segmentos diretamente envolvidos na questão, a proposta do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de criação da Área de Proteção Ambiental (APA) da Foz do Rio Doce parece estar próxima de sua efetivação. Contemplando uma rica sociobiodiversidade esta é uma área que precisa ser vista para muito além da forma como a costa capixaba tem participado do processo de crescimento do Espírito Santo.
Do ponto de vista da ação governamental de busca de investimentos privados, a costa tem sido vista como objeto de implantação de áreas portuária e de exploração de riquezas minerais nela existentes. Atividades que podem até contribuir para o crescimento do PIB, mas que estão longe do necessário cuidar da sociobiodiversidade tão importante para questões que cada vez mais afetam a sustentabilidade de humanos.
A implantação da APA da Foz do Rio Doce pode ser vista como uma janela de oportunidades para a utilização de sua diversidade natural e social como instrumento de uma agenda de desenvolvimento portadora de futuro. Contrário ao modelo de crescimento até hoje em vigor baseado na produção de commodities não renováveis, a implantação dessa área de proteção abre novas perspectivas para atividades que valorizam seres viventes, inclusive os humanos.
Novas perspectivas para a pesca artesanal praticada há muito por comunidades em sua área de influência; novas perspectivas para o turismo de esporte e lazer em escala compatível com a sustentabilidade socioambiental; novas perspectivas para o turismo científico. Turismo científico que pode ser estimulado tanto pelas riquezas naturais da região quanto pelo muito que pesquisadores da Ufes e outras instituições desenvolveram de metodologia para estudar os efeitos perversos do crime ambiental da Vale/Samarco em Mariana sobre a costa do Espírito Santo.
Turismo de contemplação da natureza e científico que pode ser ampliado a partir do trabalho que há muito desenvolve o Projeto Tamar. Através de sua base em Regência esse projeto vem desde a década de 1980 promovendo a recuperação das tartarugas marinhas através de ações de pesquisa, conservação e inclusão social.
A operacionalização dos principais objetivos da APA da Foz do Rio Doce é tarefa complexa por envolver ações articuladas dos governos federal, estadual e municipais; de comunidades que há muito contribuem com sua sociobiodiversidade; e de empresas de porte ali instaladas para a exploração de atividades portuárias e de recursos minerais. Tarefa complexa porque efetivar ações voltadas para os objetivos dessa área implica em assumir compromissos concretos com uma mudança de paradigma de desenvolvimento econômico.
Até o presente prevaleceu o crescimento baseado em projetos voltados para assegurar rentabilidade a acionistas no curto e médio prazos. A APA tem como horizonte temporal gerações futuras que dependem de ações já de valorização da rica sociobiodiversidade em seu território.
Para além da dimensão temporal, a mudança de paradigma de desenvolvimento implica em priorizar o estudo, a pesquisa e a formação de pessoas voltados para o melhor cuidar de todos os seres viventes. Daí a importância de todas as forças políticas eleitas do Espírito Santo (governador, senadores, deputados, prefeitos, vereadores) se mobilizarem para que junto com o decreto presidencial de constituição da APA do Rio Doce venha a decisão de implantar um campus do Ifes em Regência.
barcos na foz do Rio Doce em Regência: lama da Samarco contaminou as águas
Barcos na foz do Rio Doce em Regência Crédito: Carlos Alberto Silva
Para além da democratização do acesso à educação profissional e tecnológica para jovens e trabalhadores, essa implantação será o suplemento necessário para que a APA se torne efetiva em atividades de fato sustentáveis como pesca, turismo ecológico e recuperação ambiental, dentre outras.
A criação da APA da Foz do Rio Doce e a implantação de um campus do Ifes em Regência precisam ser mais do que atos administrativos. Devem representar um compromisso efetivo com um novo modelo de desenvolvimento para a formação socioeconômica capixaba. Têm que ir além da simples demarcação de território e construção de prédios. É essencial que se tornem um laboratório vivo de inovação socioambiental, onde ciência, comunidades tradicionais, ensino e sustentabilidade caminhem juntas.
Que essas iniciativas marquem o rompimento definitivo com a lógica predatória do passado - ainda em vigor no presente - e que inaugure um futuro onde preservar e prosperar sejam forças indissociáveis. Devem ser a primeira grande ação concreta para transformar o novo conteúdo da economia do mar no Espírito Santo em um vetor de riqueza duradoura porque se propõe a respeitar a vida em todas as suas formas.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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