A educação no Brasil passa por profundas mudanças ao longo das últimas décadas, impactada por transformações sociais, econômicas e culturais. Os pilares tradicionais da formação educacional – família, escola, igreja e meios de comunicação – foram acompanhados pela ascensão das redes sociais, o que alterou significativamente a maneira como crianças e adolescentes aprendem e se desenvolvem; e como adultos se formam e dão continuidade a seus processos de aprendizagem.
No pilar família um dos principais desafios enfrentados é o crescimento do número de lares monoparentais, geralmente chefiados por mulheres. Essa realidade tem implicações diretas na educação infantil, tanto no apoio emocional quanto nas condições materiais para um ensino de qualidade. A disparidade salarial de gênero e raça agrava ainda mais esse cenário, dificultando o acesso a atividades extracurriculares e materiais pedagógicos para crianças de baixa renda.
Além disso, políticas públicas voltadas para famílias monoparentais ainda são insuficientes, especialmente no nível municipal. A oferta limitada de creches e escolas de tempo integral, particularmente em favelas e bairros periféricos, cria desafios adicionais para mães que precisam conciliar trabalho e cuidado dos filhos. Muitas escolas públicas operam em horários incompatíveis com a jornada de trabalho dessas mulheres, comprometendo a educação e perpetuando o ciclo de pobreza e exclusão social.
Escolas públicas em áreas de baixa renda frequentemente enfrentam desafios como infraestrutura precária e professores mal remunerados. Essas desigualdades são evidentes na comparação entre o ensino público e privado. Enquanto alunos de escolas particulares têm melhor infraestrutura física e pedagógica, estudantes de escolas públicas lidam com condições adversas que prejudicam o aprendizado.
O ensino médio também reflete essa disparidade. Escolas privadas oferecem currículos mais ricos e melhor infraestrutura, enquanto as redes públicas estaduais e municipais sofrem com dificuldades financeiras e administrativas. Como resultado, alunos de escolas privadas têm mais chances de sucesso em vestibulares e melhores oportunidades acadêmicas e profissionais.
No ensino superior, o Brasil registrou avanços na ampliação do acesso, especialmente em universidades públicas e Institutos Federais. No entanto, programas como o Fies impulsionaram o crescimento do ensino superior privado, permitindo o surgimento de faculdades de qualidade duvidosa e gerando endividamento estudantil. Atualmente, mais de 75% dos alunos universitários estão matriculados em instituições privadas, muitas das quais operam com foco no lucro em detrimento da formação integral do estudante.
A entrada de grandes grupos empresariais, muitos de capital estrangeiro, transformou o ensino em mera oportunidade para aplicações financeiras, como se mercadoria fosse. E isso está estampado no material de propaganda e publicidade onde até na ‘Black Friday’ é oferecido. No ensino fundamental a ênfase é a ‘garantia’de preparar o aluno para ser bem sucedido; no médio, como ser esperto e marcar as respostas corretas; no superior é a menor prestação para o curso a distância.
A ênfase na lucratividade levou ao crescimento do ensino a distância e à priorização de cursos com custos operacionais reduzidos, em detrimento de uma formação de qualidade. Essa mercantilização compromete a missão educacional e reforça desigualdades, favorecendo alguns poucos e limitando as oportunidades para os mais pobres.
Destaque-se, por um lado, que o papel das igrejas na educação também se ampliou, especialmente com o crescimento das denominações pentecostais. Em muitas comunidades carentes, essas instituições oferecem apoio social e emocional, preenchendo lacunas deixadas pelo Estado. No entanto, a influência religiosa na educação pode trazer desafios, como a limitação do pensamento crítico e a imposição de visões dogmáticas em escolas e nos necessários debates políticos sobre educação.
Por outro, que os meios de comunicação continuam sendo ferramentas poderosas na formação de opinião e disseminação de conhecimento. No entanto, o controle das grandes mídias por conglomerados empresariais influencia diretamente o discurso educacional, priorizando interesses políticos e econômicos.
Ao mesmo tempo, as redes sociais se tornaram uma importante fonte de aprendizado, permitindo o acesso instantâneo a informações de todo o mundo. No entanto, esse ambiente também apresenta riscos, como a disseminação de fake news e a superficialidade do aprendizado. Além disso, o uso excessivo de tecnologia pode comprometer a capacidade de concentração e pensamento crítico dos jovens.
A educação no Brasil enfrenta desafios que vão além do acesso à escola. É preciso ampliar o debate sobre eles nas diversas instâncias onde se fazem necessário – famílias, escolas, igrejas, meios de comunicação, poderes do Estado. Debate que pode começar pela simples questão: qual a finalidade da educação?
A sociedade precisa encarar o fato de que ou encontra uma nova finalidade para a educação neste século XXI ou ela, conforme pensada no passado, acabou.