A única resposta possível para o que aconteceu em Brasília no domingo, 8 de janeiro de 2023, é que os vândalos que propiciaram o lamentável espetáculo de desordem e destruição querem de volta ao poder quem perdeu as eleições presidenciais de 2022. Qual o significado dessa volta?
Dar continuidade ao processo de destruição de tudo o que o Brasil tem de melhor. Por um lado, destruição de sua natureza através da invasão de terras dos povos originários e quilombolas; devastação da rica diversidade dos biomas do país; uso de cursos d’águas e do ar como se fossem lixeiras de suas atividades econômicas legais e ilegais.
Por outro, destruição do que o Brasil tem de singular em termos de pluralidade e diversidade cultural resultado da resiliência tanto por parte dos que aqui já viviam quando da invasão europeia quanto daqueles que para aqui foram trazidos escravizados da África. Pluralidade e diversidade que têm também a contribuição de migrantes das mais diversas partes do mundo. Resiliência de subjugados e contribuição de migrantes que dão liga para a constituição do povo brasileiro em suas dimensões culturais, sociais e econômicas, ainda imersas e profundas injustiças.
Injustiças reconhecidas em graus diferentes pela maioria da população e que precisam ser reparadas através de processos políticos democráticos a começar por eleições livres e por instituições que se suplementem na condução de uma Brasil soberano. Reconhecimento de injustiças consagrada nas urnas em 2022 e processos políticos baseados em instituições que se suplementam conforme demonstrado desde a vitória do presidente Lula em 30 de outubro último.
Eventos que se sucederam ao longo dos últimos quatro anos demonstraram que, a quem exercia o poder da presidência da República e seus seguidores, nenhum interesse havia em valorizar o que o Brasil tem de melhor ou em respeitar as instituições consagradas pela Constituição de 1988. As cenas protagonizadas por invasores de espaços públicos por todo o país em torno de quartéis desde a proclamação dos resultados eleitorais apenas deram curso a tudo de trágico-patético que a nação brasileira passou ao longo da última (indi) gestão.
O terrorismo gestado nessas invasões - sob a conivência direta ou indireta de governadores e prefeitos - por um lado, foi financiado por quem ao longo dos últimos quatro anos teve licenças objetivas e simbólicas ampliadas para portar armas, destruir a natureza, matar majoritariamente jovens, negros, mulheres, LGBTQIAP+ no campo e nas cidades. Por outro, foi inspirado por fé gerida e motivada por mercadores de falsos poderes divinos a serviço de preconceitos de todos os tipos e de uma teologia da prosperidade que coloca o ganho financeiro acima de tudo e de todos.
O fundamentalismo que tomou conta do governo federal ao longo dos últimos quatro anos emergiu de forma concentrada e letal dessas invasões e daí ao vandalismo ocorrido em Brasília no último dia 8 foi apenas um passo a mais. Um passo na busca de destruir tudo o que pudesse simbolizar a arte do povo brasileiro; o respeito que o Brasil tem junto à comunidade internacional; e as instituições que formam os três pilares consagrados da democracia representativa: os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Peças do patrimônio histórico-artístico foram tratadas pior do que as garrafas pet nas invasões em frente aos quartéis. Obras de arte, registros históricos, edificações que fazem parte da imagem positiva que o Brasil tem de si mesmo e no exterior foram usadas como latrina e como quintal a ser ocupado com lixo do que pode haver de pior em seres humanos.
E agora José, José para onde? Primeiro, dar consequência para o sonoro basta ecoado por brasileiros e estrangeiros indignados com a barbárie. Que se dê curso à aplicação da lei por parte dos Três Poderes no que cabe a cada um e que culpados sejam punidos na sua forma. Sem anistia.
Segundo, rever, aprimorar, aprofundar e acelerar processos de sensibilização das pessoas com relação a valores civilizatórios de respeito à vida de humanos e demais seres viventes. Processos de sensibilização que precisam ser gestados e ampliados em espaços privilegiados de educação: famílias, escolas, templos, meios de comunicação empresariais e em redes sociais.
Sem essa de apontar culpados e determinar a quem cabe o primeiro passo. Culpados por estarmos à beira do abismo civilizatório somos todos independentemente se em maior ou menor grau. O primeiro passo pode ser o (m s) eu! Que ele seja dado em respeito ao futuro de nossos filhos, netos e quem mais vier; que ele seja dado em nome do presente que quisermos e pensamos merecer.