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Política

Tabata e Rigoni: incômodo com partidos é traço comum dos jovens na política

Esses jovens precisam ter foco na mudança da legislação partidária, do sistema eleitoral, e no código eleitoral. Na democracia representativa, eles vão avançar pouco se não pedirem passagem nas direções dos partidos

Publicado em 02 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

02 out 2021 às 02:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Câmara
Os deputados federais Tabata Amaral e Felipe Rigoni Crédito: Maryanna Oliveira e Cleia Viana/Câmara dos Deputados
Acompanho a trajetória dos jovens políticos que surgiram do zeitgeist (espírito de época) das manifestações de 2013 no Brasil. O processo de renovação das lideranças políticas é crucial para a democratização da democracia no Brasil. Aqui e agora, os movimentos cívicos e todas as iniciativas de formação política são cruciais para a renovação. Mas são também fundamentais as reformas do nosso sistema político.
Leio artigos de Tabata Amaral na Folha de S. Paulo. Acompanho alguns passos e falas de Felipe Rigoni. O último artigo dela (24/09) foi visceral e corajoso. As falas recentes dele apontam para o desejo de voos políticos maiores. Na Folha, Tabata enumerou os ataques que recebe, com ofensas e ameaças. E afirma que “jamais seremos um país realmente democrático enquanto a política não for um espaço seguro, física e psicologicamente, para as mulheres”. A defesa do respeito na convivência democrática. Tabata saiu do PDT e filiou-se ao PSB: “Aqui eu terei espaço”.
Nas falas recentes, Rigoni coloca-se como liderança emergente e revela que cogita uma eventual candidatura a governador do Espírito Santo em 2022. Critica, inesperadamente, a gestão do governador Renato Casagrande, do seu próprio partido (PSB): “Falta gestão e faltam projetos”. Jogo jogado. Ele pretende mudar-se para outro partido. Estaria próximo do PSDB, DEM e PSD.
Ambos mostram desconforto com seus partidos. É um traço comum a outros jovens que ingressaram em 2018 na política partidária. Assim como é traço comum deles a militância digital. O que nos leva a convidá-los para um exercício de dúvida socrática. Nesta direção, cabe sugerir a eles atenção ao império da práxis na vida real. Prestar atenção ao nexo entre o virtual e o real e conviver mais com o Brasil profundo.
Nesta direção, ainda, cabe o foco na qualidade das políticas públicas, ponto focal da formação recente deles. Sim, a política, na esfera da gestão pública requer ênfase técnica e presença de tecnocratas. Mas requer, também, a habilidade e a intuição políticas forjadas na práxis e no mundo da realpolitik.
Se eu pudesse sugerir, diria que todos esses jovens precisam ter foco na mudança da legislação partidária, do sistema eleitoral, e no código eleitoral. Na democracia representativa, eles vão avançar pouco se não pedirem passagem nas direções dos partidos. Se eles não tiverem voz e voto nos partidos, serão seguidos nas redes sociais, mas terão baixa capacidade de influência nas políticas públicas. É preciso diminuir o poder das oligarquias partidárias. E melhorar o sistema eleitoral, com a adoção do sistema distrital misto, que melhora a representatividade.
Esses jovens estão diante do status quo a ser enfrentado. Movimento é movimento. Partido é partido. Como estabelecer entre ambos uma influência recíproca, sem dissolvê-los na síntese? Para navegar nessas contradições da práxis, eles precisam lembrar que, como animais políticos, somos produtos das sutilezas psicológicas e sociológicas das nossas contradições intrínsecas. A realpolitik, nua e crua.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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