Isso chama a atenção do Ocidente para as limitações dos remédios monetaristas. Os economistas e os políticos voltam a olhar para o keynesianismo. E ver que os paradigmas precisam mudar, pois o capitalismo mudou para a era dos monopólios digitais, que vêm junto ao desemprego estrutural e as desigualdades. O debate está em curso, para além da dimensão da teoria econômica “stricto sensu”. Inclui, também, as dimensões política, social e filosófica.
Enquanto isso, Zachary D. Carter publicou em 2020 uma biografia seminal de Keynes: “The Price of Peace – Money, Democracy, and The Life of John Maynard Keynes”. Carter destrincha a vida e a obra de Keynes, desde o início do século XX, em Cambridge, Inglaterra. Mostra que a obra, culminando com a sua Teoria Geral, é muito mais do que só economia: “É uma obra-prima do pensamento social e político, na tradição dos legados de Aristóteles, Thomas Hobbes, Edmund Burke e Karl Marx. É uma teoria da democracia e do poder, da psicologia e das mudanças históricas”. A Teoria Geral mostra que o problema central da economia moderna é a desigualdade. E que a prosperidade precisa ser orquestrada e sustentada por liderança política (do Estado).
O obituário de Keynes, feito pelo Times na época, o retratava como o maior economista “desde Adam Smith”. E como um pensador que mudou paradigmas, com uma obra econômica que fundiu psicologia, história e teoria política, “observando experiências financeiras e monetárias reais, como nenhum economista tinha feito antes”.
O pensamento econômico de Keynes vai muito além da “fórmula” defendida por ele: gastos públicos voltados para investimentos em geração de renda e emprego e saúde, como no “New Deal” de Roosevelt. É mais que uma “fórmula”. É uma constatação da imanência de incertezas sociais e políticas - e do equilíbrio econômico instável nas sociedades, com propensão às desigualdades. Essas características estruturais requerem liderança política para orquestrar a prosperidade, a democracia e a paz.
Mais de cem anos depois do Acordo de Paris do pós-Primeira Guerra Mundial, para o qual Keynes contribuiu muito, o keynesianismo está mais uma vez de volta, como no New Deal e na crise de 2008. Outra vez, ele aponta as limitações do pensamento econômico convencional.
A teoria monetária hegemônica defende a contenção do poder financeiro do Estado e alerta para um risco de crise fiscal e colapso econômico. Essa ortodoxia era refutada por Keynes, para quem o investimento, crucial para o desenvolvimento e o combate às desigualdades, requer o otimismo e o estímulo ao “espírito animal” dos empresários – que, por sua vez, requerem liderança política para ancorar expectativas.
No Brasil, André Lara Resende mostra que a ortodoxia estimula o capitalismo financeiro e o rentismo, aumenta as desigualdades e provoca o colapso dos serviços públicos. Para ele, “a verdadeira responsabilidade fiscal e monetária consiste em assegurar que a faculdade de criar poder aquisitivo do Estado seja dirigida para investimentos que aumentem a produtividade e o bem-estar”. Isso não está acontecendo. Um bumerangue pode atingir o próprio capitalismo.