Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Economia

O "keynesianismo" sobreviveu a John Maynard Keynes

O obituário de Keynes, feito pelo Times na época, o retratava como o maior economista “desde Adam Smith”. E como um pensador que mudou paradigmas, com uma obra econômica que fundiu psicologia, história e teoria política

Publicado em 19 de Fevereiro de 2022 às 02:00

Públicado em 

19 fev 2022 às 02:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

The money writes with white chalk is on hand, draw concept.
A Teoria Geral mostra que o problema central da economia moderna é a desigualdade Crédito: Freepik
inflação voltou a assombrar o Brasil e passou de 10%. O Banco Central reagiu com o remédio amargo dos juros de 10,75%, que podem chegar a 12,25%. Inflação também nos Estados Unidos e na Europa. É a inflação estrutural, do choque de oferta da pandemia e do desemprego estrutural. Pode ser que o remédio não resolva e agrave a doença do paciente: mais desemprego e desigualdade.
Isso chama a atenção do Ocidente para as limitações dos remédios monetaristas. Os economistas e os políticos voltam a olhar para o keynesianismo. E ver que os paradigmas precisam mudar, pois o capitalismo mudou para a era dos monopólios digitais, que vêm junto ao desemprego estrutural e as desigualdades. O debate está em curso, para além da dimensão da teoria econômica “stricto sensu”. Inclui, também, as dimensões política, social e filosófica.
Enquanto isso, Zachary D. Carter publicou em 2020 uma biografia seminal de Keynes: “The Price of Peace – Money, Democracy, and The Life of John Maynard Keynes”. Carter destrincha a vida e a obra de Keynes, desde o início do século XX, em Cambridge, Inglaterra. Mostra que a obra, culminando com a sua Teoria Geral, é muito mais do que só economia: “É uma obra-prima do pensamento social e político, na tradição dos legados de Aristóteles, Thomas Hobbes, Edmund Burke e Karl Marx. É uma teoria da democracia e do poder, da psicologia e das mudanças históricas”. A Teoria Geral mostra que o problema central da economia moderna é a desigualdade. E que a prosperidade precisa ser orquestrada e sustentada por liderança política (do Estado).
O obituário de Keynes, feito pelo Times na época, o retratava como o maior economista “desde Adam Smith”. E como um pensador que mudou paradigmas, com uma obra econômica que fundiu psicologia, história e teoria política, “observando experiências financeiras e monetárias reais, como nenhum economista tinha feito antes”.
O pensamento econômico de Keynes vai muito além da “fórmula” defendida por ele: gastos públicos voltados para investimentos em geração de renda e emprego e saúde, como no “New Deal” de Roosevelt. É mais que uma “fórmula”. É uma constatação da imanência de incertezas sociais e políticas - e do equilíbrio econômico instável nas sociedades, com propensão às desigualdades. Essas características estruturais requerem liderança política para orquestrar a prosperidade, a democracia e a paz.
Mais de cem anos depois do Acordo de Paris do pós-Primeira Guerra Mundial, para o qual Keynes contribuiu muito, o keynesianismo está mais uma vez de volta, como no New Deal e na crise de 2008. Outra vez, ele aponta as limitações do pensamento econômico convencional.
A teoria monetária hegemônica defende a contenção do poder financeiro do Estado e alerta para um risco de crise fiscal e colapso econômico. Essa ortodoxia era refutada por Keynes, para quem o investimento, crucial para o desenvolvimento e o combate às desigualdades, requer o otimismo e o estímulo ao “espírito animal” dos empresários – que, por sua vez, requerem liderança política para ancorar expectativas.
No Brasil, André Lara Resende mostra que a ortodoxia estimula o capitalismo financeiro e o rentismo, aumenta as desigualdades e provoca o colapso dos serviços públicos. Para ele, “a verdadeira responsabilidade fiscal e monetária consiste em assegurar que a faculdade de criar poder aquisitivo do Estado seja dirigida para investimentos que aumentem a produtividade e o bem-estar”. Isso não está acontecendo. Um bumerangue pode atingir o próprio capitalismo.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Ciclista morre após ser atingido por moto em São Mateus
Carro capotou após colisão com caminhão
Jovem de 22 anos morre após bater em caminhão e capotar na Leste-Oeste
Neymar, jogador do Santos
Neymar quebra tabu físico, mas volta a deixar Vila criticado e sob polêmica

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados