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Administração pública

Restauração da gestão municipal precisa estar na agenda nacional em 2022

As receitas disponíveis para os municípios cresceram nas últimas décadas, mas grande parte deles tem dificuldade de geração de recursos próprios

Publicado em 20 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

20 nov 2021 às 02:00
Antônio Carlos Medeiros

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Antônio Carlos Medeiros

Na gestão da pandemia da Covid-19 no Brasil, os municípios têm sido fundamentais no avanço da vacinação, atuando na ponta do arranjo federalista da estrutura do SUS. A pandemia reafirmou o quão importante é o edifício federalista no arcabouço político institucional do nosso sistema político. Mostrou que é preciso fortalecer o federalismo para melhorar a governança e a governabilidade no Brasil.
Entretanto, para além da pandemia, temos que superar o problema da carência de gestão na média dos municípios. Temos uma contradição. O poder local/regional é essencial na mediação política e na gestão governamental do país. Mas, ao mesmo tempo, é preocupante a gestão fiscal em nossas cidades. Em 3.024 (das 5.568 cidades), o Índice Firjan de Gestão Fiscal registra situação fiscal difícil ou crítica. Em 1.818 o custo de pessoal supera 54% da receita corrente líquida e em 2.672 os investimentos representam apenas 4,6% do orçamento.
É uma tendência de deterioração dos serviços públicos. Apesar do nível municipal de governo ter aumentado a sua participação na divisão das receitas entre os três níveis de governo (federal, estadual, municipal): de 8,57% do total em 1980 para 16,72% em 2000, e para 20,70% em 2019. Triplicou nos últimos 40 anos.
A questão é que a Constituição de 1988 aumentou as obrigações dos Estados e municípios. E estimulou um boom de criação de novos municípios. Em 1980, o Brasil tinha 3.992 municípios. Cresceram para 4.991 em 1991, 5.498 em 1997 e 5.568 atualmente. As receitas disponíveis para os municípios cresceram, mas grande parte deles tem dificuldade de geração de recursos próprios. Mesmo assim, em 2000 os funcionários municipais representavam 43% do total e aumentaram para 60% em 2021, segundo o Ipea. Nas capitais, a despesa bruta com pessoal representa 60% da receita corrente líquida.
Temos, portanto, um dilema institucional a ser pautado pelos senhores candidatos à presidência da República. É preciso restaurar a gestão pública local/municipal,  com ajustes das suas regras previdenciárias, nos moldes da reforma da previdência de 2019;  com a adoção de tecnologias digitais; com a pactuação política de um processo de fusão de municípios. Tudo isso no contexto mais amplo de recuperar a função política e institucional do federalismo, como instância de mediação política e social, resultando na efetividade governamental.
Uma agenda nacional mais legítima e condizente com nossa realidade plural, complexa e heterogênea precisa reconstruir essa visão político-institucional do federalismo. A União, os Estados e os municípios são partes interdependentes do mesmo Estado Nacional. São instâncias de poder, que mediam relações sociais, e não apenas níveis de “gerência” administrativa. Entretanto, o debate nacional não criou ainda tração para inserir a dinâmica política federalista na agenda política. Atenção, senhores candidatos à presidência da República!

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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