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Política

Conseguiremos superar o mal-estar dos brasileiros?

Todo dia, uma nova tensão. A tensão está no ar. medos, incertezas e ódios rondam a vida dos brasileiros. Com impulsos primitivos de violência

Públicado em 

04 abr 2026 às 04:00
Antônio Carlos de Medeiros

Colunista

Antônio Carlos de Medeiros

O mal-estar do brasileiro pode piorar. A guerra no Irã acendeu a luz amarela com sinal para vermelho. Giuliano Gundalini adverte: “Apertem os cintos: há uma recessão a caminho”.
Niall Ferguson complementa: “A guerra no Irã está estrangulando o fornecimento global de energia. A história mostra que choques como esse raramente terminam sem uma recessão”. Horizonte de inflação e estagnação.
Esses são os prováveis efeitos externos no aumento do mal-estar.
Enquanto isso, os efeitos internos já se acumulam pelo menos desde a pandemia, em rota crescente. Endividamento das famílias brasileiras e crescimento da dívida pública. Mais dívida em relação ao PIB, mais juros para rolar a dívida, mais aumento da taxa de juros pelo Banco Central, mais carestia no crédito para famílias e empresas, mais endividamento, mais carestia no supermercado.
Retroalimentação, alertou outro dia Rafael Furlanetti aqui em A Gazeta. Mostrou que quase um terço da renda das famílias é para o pagamento de dívidas. Mostrou que em fevereiro 80,2% das famílias tinham dívidas: “O maior patamar de toda a série histórica, desde 2010”.
Com a dívida bruta do governo brasileiro projetada para 83,6% do PIB em 2026 pela Instituição Fiscal Independente, lembra Furlanetti. A tendência, segundo o IFI, é passar de 100% do PIB em 2030 – “Ou seja, o Brasil devendo mais do que tudo o que produz em um ano”, conclui ele.
Os fatos e os dados mostram que o ano de 2027 já está contratado no Brasil. Ano muito difícil, com baixo crescimento e ameaça de carestia constante. Com o governo à beira do chamado “shutdown”. Quem vai encarar?
Todo dia, uma nova tensão. A tensão está no ar. medos, incertezas e ódios rondam a vida dos brasileiros. Com impulsos primitivos de violência.
Permanece predominante a sensação de mal-estar. Carestia, desassossego, baixa qualidade dos serviços públicos. A sensação que piorou, mostrada pelas pesquisas. Combinação de desencanto e revolta. Há algum tempo atrás, Christopher Garmam observou que “a geologia da opinião pública está podre” na América Latina (e no Brasil).
Resta urgente que o debate presidencial precisa apontar saídas para o Brasil. Qual futuro?
Conseguiremos superar o mal-estar dos brasileiros? Vamos lembrar que o “mal-estar da civilização” (escrito em 1929 por Freud), se refere à teoria freudiana de que o conflito entre as regras sociais e as pulsões primitivas do homem seria a primeira causa dos distúrbios psicológicos daquele tempo. Agora também? Distúrbios que resultam em medo, ódio e revolta.
Quem vai encarar?
Aprendemos com a História que um país não funciona sem Agenda (com “A” maiúsculo). Pois o Brasil, hoje, é um país sem uma Agenda democraticamente pactuada. A nau errática segue em zigue-zague. Pode piorar, como nos mostram os fatos, dados e tendências.
Supermercado, alimentos, inflação, consumidor, consumo
Inflação Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Arquivo
Agenda. Qual? Esse é o desafio diante de nós em 2026 e 2027.
Está claro que 2027 precisa ser recontratado. Como criar forças políticas e econômicas para superar a piora da conjuntura e, também, das estruturas? A incógnita crescente é: que candidatura vai conseguir amealhar força para ajustar a bússola do país?
Vêm daí algumas constatações políticas que só fazem crescer a incógnita.
A primeira é que vivemos num semipresidencialismo “de fato”, com o Centrão diante de um presidente frágil.
A segunda é o crescente peso do “não voto” (brancos, nulos, abstenções) nas eleições – criando déficit de legitimidade do presidente e de representatividade dos congressistas.
E a terceira é a de que as mudanças esperadas requerem um novo pacto de poder.
A construção de um novo bloco de poder com legitimidade. Isto é, a costura, já no debate político-eleitoral, de uma Frente Ampla de partidos e lideranças legitimadas pelo voto popular e reconhecidas pelas forças oposicionistas.
Essa percepção de que as mudanças sócio-econômicas e político-institucionais requerem capital político, capital social e capital simbólico respaldado em novo bloco de poder precisa guiar as alianças da candidatura presidencial que, uma vez vitoriosa nas urnas, vai governar o Brasil. Pois que as mudanças precisam mexer no cerne do pacto de poder vigente.
É mudar ou mudar. A permanência do status quo vai aprofundar conflitos e impedir a superação da anomia social. E do mal-estar dos brasileiros.
A demanda da sociedade é por mudanças. Qual será a oferta política, isto é, qual será a liderança, legitimada pelas urnas, que vai governar o Brasil?

Antônio Carlos de Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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