Uma operação com tropas dos Estados Unidos invadindo uma instalação nuclear secreta subterrânea para apreender o estoque de urânio enriquecido do Irã pode parecer improvável, mas é uma opção que o presidente americano, Donald Trump, estaria considerando para atingir seu principal objetivo na guerra: impedir que o regime iraniano desenvolva armas nucleares.
Segundo especialistas militares e ex-autoridades da defesa americana entrevistados pela BBC, a ação com o envio de tropas terrestres poderia levar vários dias ou até semanas para ser concluída, e seria extremamente desafiadora e repleta de riscos.
A retirada do estoque de urânio seria uma das "operações especiais mais complexas da história", afirmou Mick Mulroy, ex-secretário-adjunto de Defesa dos EUA para o Oriente Médio.
Esse cenário é apenas uma entre várias ações militares que Trump poderia adotar contra o Irã. Outras opções incluem a possibilidade de os EUA assumirem o controle da ilha de Kharg, em uma tentativa de pressionar o Irã a reabrir totalmente o Estreito de Ormuz, por onde são transportados cerca de 20% do petróleo produzido no mundo.
O governo americano também pode estar usando a ameaça de novas operações militares para forçar o Irã a voltar à mesa de negociações.
Em entrevista por telefone à CBS News, parceira da BBC nos EUA, na terça-feira (31/3), Trump se recusou a dizer se seria possível declarar vitória na guerra sem remover ou destruir o urânio enriquecido do Irã.
Mas Trump pareceu minimizar a importância do estoque, ao citar os danos causados por ataques dos EUA e de Israel em junho passado. "Isso está tão profundamente enterrado que será muito difícil para qualquer um", disse Trump. "Está lá embaixo, bem fundo. Então… está bastante seguro. Mas, você sabe, vamos tomar uma decisão."
As declarações foram feitas após o jornal americano Wall Street Journal reportar que os EUA estariam considerando uma operação para extrair o material radioativo. O governo americano afirmou que Trump ainda não tomou uma decisão sobre o tema.
Uma operação voltada ao estoque de urânio do Irã enfrentaria vários desafios logísticos significativos, segundo especialistas.
No início da guerra, o Irã possuía aproximadamente 440 kg de urânio enriquecido a 60%, segundo autoridades de alto escalão americanas. Esse material pode ser enriquecido com relativa rapidez até o limite de 90%, patamar necessário para uso em armas nucleares.
O Irã também tem cerca de 1.000 kg de urânio enriquecido a 20% e 8.500 kg enriquecidos ao nível de 3,6%, aceito para pesquisa médica.
Acredita-se que a maior parte do urânio altamente enriquecido, que pode ser facilmente convertido em material para bombas ou mísseis, esteja armazenada em Isfahan. A instalação é um dos três complexos nucleares subterrâneos do Irã que foram alvos de ataques aéreos dos EUA e de Israel no ano passado.
Mas não está claro quanto do urânio altamente enriquecido está armazenado em outros locais.
Uma operação militar para recuperar o material seria mais fácil se os EUA soubessem exatamente onde o estoque está, disse Jason Campbell, ex-alto funcionário da defesa americana nos governos de Barack Obama e Donald Trump.
"O cenário ideal é saber exatamente onde está", disse Campbell. "Se ele foi disperso em quatro locais diferentes, então estamos falando de um nível totalmente diferente de complexidade."
Além de Isfahan, parte do urânio altamente enriquecido também pode estar armazenada em Fordo e Natanz, as outras duas instalações de enriquecimento que foram alvo da Operação Midnight Hammer executada pelos EUA e por Israel no ano passado.
Rafael Grossi, diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), afirmou no mês passado que a maior parte do urânio altamente enriquecido do Irã está armazenada em Isfahan, com material adicional em Natanz. Mas Grossi disse que informações mais detalhadas não estão disponíveis porque os inspetores não visitam os locais desde que foram retirados do Irã após a operação militar dos EUA e de Israel em 2025.
"Há muitas questões que só poderemos esclarecer quando formos capazes de voltar", disse Grossi a jornalistas.
Obter acesso ao urânio altamente enriquecido representa outro conjunto de desafios, supondo que os EUA saibam onde ele está.
Há indícios de que o Irã reforçou um complexo subterrâneo próximo a uma de suas instalações nucleares antes dos ataques dos EUA e de Israel neste ano. Em Isfahan, por exemplo, imagens de satélite de fevereiro indicaram que todas as entradas do complexo de túneis pareciam ter sido seladas com terra, o que tornaria qualquer operação mais difícil.
Desde o início da guerra, os EUA e Israel têm conseguido usar apenas ataques aéreos para dizimar a Marinha iraniana, enfraquecer seus mísseis balísticos e danificar sua base industrial. Mas, ao contrário desses outros objetivos militares, especialistas afirmam que assegurar o urânio enriquecido do Irã não poderia ser feito sem o uso de forças terrestres.
Os EUA poderiam usar elementos da 82ª Divisão Aerotransportada — que foi mobilizada para o Oriente Médio — para proteger as áreas ao redor de Isfahan e Natanz. Em seguida, forças de operações especiais treinadas para lidar com material nuclear seriam enviadas para recuperar o urânio enriquecido. O urânio em si está em forma gasosa e acredita-se que esteja armazenado em grandes recipientes metálicos.
Imagens de satélite mostram que as entradas de Isfahan e Natanz foram seriamente danificadas por ataques aéreos americanos em 2025. As forças americanas provavelmente precisariam de maquinário pesado para escavar os escombros a fim de localizar o urânio enriquecido, que se acredita estar armazenado em túneis profundos — tudo isso enquanto enfrentariam possíveis ataques do Irã.
"Primeiro, é preciso escavar o local e detectar [o urânio enriquecido] enquanto, muito provavelmente, se está sob ameaça quase constante", disse Campbell.
Capacidade de defesa
Permanece em aberto a questão de como o Irã poderia reagir, ou que nível de ameaça poderia representar para as tropas terrestres americanas que visassem as principais instalações nucleares do país.
Os EUA e Israel vêm enfraquecendo as "capacidades de defesa iranianas para viabilizar esse tipo de operação, caso seja necessária", afirmou Alex Plitsas, ex-funcionário da Defesa dos EUA e pesquisador sênior não residente da Scowcroft Middle East Security Initiative. Ainda assim, ele disse que se trataria de uma operação de "alto risco".
As tropas terrestres americanas ficariam isoladas em Isfahan, localizada a cerca de 482 km para dentro do território iraniano, a partir da terceira maior cidade do país. "Isso dificulta [as evacuações médicas] devido às distâncias. Torna [as tropas americanas] vulneráveis ao fogo antiaéreo na ida e na volta, além de ataques enquanto estiverem" na instalação nuclear, disse Plitsas.
Embora a operação possa assumir diferentes formas, especialistas afirmam que ela provavelmente envolveria a tomada de um aeródromo ou zona de pouso a partir da qual as forças dos EUA poderiam operar, e então retirar o urânio enriquecido do Irã após recuperá-lo.
A 82ª Divisão Aerotransportada, treinada para garantir o controle de aeródromos e outras infraestruturas, poderia ser usada junto com outras forças americanas para estabelecer uma base de operações para a missão, disseram especialistas militares. Uma vez que o urânio estivesse assegurado, os EUA enfrentariam então a questão de retirá-lo do país ou diluí-lo no próprio local.
Altos autoridades do governo afirmaram no início da guerra que os EUA poderiam considerar diluir o urânio altamente enriquecido do Irã no próprio local, em vez de removê-lo do país. Mas isso seria uma operação grande, complexa e demorada, disse Jonathan Ruhe, especialista no programa nuclear iraniano no Jewish Institute for National Security of America, um think tank (centro de pesquisa e debates) conservador em Washington D.C., nos EUA.
Apreender e retirar o urânio do Irã seriam mais rápido e permitiria aos EUA diluir o material nos EUA, disse Ruhe. A operação seria profundamente arriscada independentemente de como fosse realizada, acrescentou.
"Você tem basicamente meia tonelada do que é, na prática, urânio em nível de armamento que precisa ser retirado", disse Ruhe. "E há 1 milhão de coisas que podem dar errado."