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Política

A máxima do fundo do poço com molas está em teste no Brasil

A conjunção de crises desperta o pessimismo, a raiva e a desesperança. Com regressão civilizatória. Do fundo do poço surgirá a fênix?

Publicado em 24 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

24 jul 2021 às 02:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Fachada do Congresso Nacional durante amanhecer em Brasília
A fragilidade do Centro de Poder abriu espaço para um Fundo Eleitoral de quase R$ 6 bilhões para turbinar a indústria de eleições no país Crédito: Pedro França/Agência Senado
A fragilidade do Centro de Poder, cujo epicentro é a presidência da República, abriu espaço para um Fundo Eleitoral de quase R$ 6 bilhões para turbinar a indústria de eleições no país. A sociedade aumentou a rejeição aos políticos e à Política. Está na hora de redefinir como financiar campanhas eleitorais. Voltar ao financiamento misto – público e privado – com limites definidos e adotar o sistema eleitoral distrital misto, barateando as campanhas.
A mesma fragilidade de Poder alimenta a ameaça de golpe. Que retroalimenta a fragilidade. Há que se recolocar as reformas políticas na Agenda, mirando o ambiente político-eleitoral de 2022. Não estas reformas regressivas que estão na Câmara, mas sim as três mais estruturais: o sistema distrital misto; o semipresidencialismo; e a legislação partidária para conter as oligarquias.
Tudo somado, a política brasileira fecunda e é fecundada por um processo entrópico de causação circular. Aciona a mola do fundo do poço. E desorganiza a coalizão politicamente dominante. O ciclo político entra em ocaso e retira da Política a sua função de articulação e agregação de interesses. Aprofunda a entropia. Tudo temperado por uma vertigem no conjunto das lideranças políticas relevantes. Resultando em ausência de capacidade convocatória para o diálogo da busca do horizonte.
A conjunção de crises desperta o pessimismo, a raiva e a desesperança. Com regressão civilizatória. Do fundo do poço surgirá a fênix? A democracia brasileira resiste. Lá atrás, a “Nova República” pactuou e construiu uma restauração do Estado Nacional brasileiro, que passou pela Constituição de 1988 e por um ciclo que institucionalizou conquistas democráticas, estabilidade econômica e inclusão social.
Com a explosão de demandas, a democracia sobrecarregou-se de obrigações e distorceu-se em nome do atendimento de interesses específicos, ao mesmo tempo em que diminuiu a capacidade de entrega do Estado. O Estado sobrecarregado deslegitimou a ordem restaurada com a Nova República. Fim de ciclo. Está na hora de mudar a Agenda. E buscar uma nova restauração histórica, 35 anos depois da Nova República.
O tempo político está atropelando o calendário gregoriano. É preciso contornar, politicamente, tanto o vácuo no Centro do Poder, quanto uma situação de tutela política, que manteriam o país em instabilidade política e ingovernabilidade latente. Para que o processo político-eleitoral de 2022 seja um marco na construção da nova Agenda, colocando a reconstrução político-institucional como impulso para a restauração do Estado.
Na trilha de Montesquieu, há que se renovar sempre a qualidade das instituições. Pois as virtudes e vícios do Estado decorrem de deficiências institucionais, muito mais do que de virtudes e vícios dos seus dirigentes e dos cidadãos. A causa maior de nossos problemas está nas regras, e o efeito está nos indivíduos. Até agora, o debate ficou apenas no efeito: os indivíduos. É preciso focar na causa: o sistema e suas regras.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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