Política é como nuvem. Muda toda hora. Nos últimos dias, duas movimentações de nuvens políticas precisam ser observadas com atenção.
No Espírito Santo, refiro-me a falas, também recentes, do governador Renato Casagrande. Também sinalizando que poderá até mesmo não se candidatar a nada. É um sinal de grande significado. Ele desejaria preservar o legado e liderar a sua sucessão.
Em política, os sinais e gestuais contêm significados muitas vezes tão ou mais importantes do que afirmativas e decisões. Simplesmente porque mexem com as expectativas de poder. Olha aí as expectativas. Sempre elas. São elas que movimentam a política do poder político e a política do poder econômico. Perdoem-me pelo jogo de palavras. É necessário. Para (tentar) decifrar significados.
Em ambiente nacional de conjuntura de crise de confiança e desancoragem das expectativas econômicas e políticas, o sinal de Lula de que poderá não ser candidato cria uma expectativa de vácuo que certamente será preenchido rapidamente. Em política, sabemos, não existe vácuo.
De pronto, o vácuo fragiliza ainda mais a governança e a governabilidade do governo Lula. Na sequência, poderá antecipar e acelerar disputas políticas pela sucessão presidencial. De qualquer forma, a sucessão está posta.
Com sua decantada intuição e inteligência política, caberá ao presidente Lula se recompor e rearticular para não perder a iniciativa de Agenda, mais do que já perdeu. Para isso, vai precisar ter protagonismo político nas eleições municipais deste ano. E trabalhar para não ter adversários ferrenhos nas sucessões da Câmara Federal e do Senado da República.
E, lá na frente, qual poderá ser resultante? Disse-me um experiente observador da cena política nacional que Lula está virando para-raios da insatisfação. Por contraste, diz ele, isto pode melhorar o cacife de Fernando Haddad para 2026. Por enquanto, o governo só tem dois candidatos com viabilidade nacional: Lula e Haddad.
Para este mesmo observador, a oposição ainda não tem nenhum candidato com viabilidade nacional. O governador Tarcísio de Freitas está contido em São Paulo. Sem Jair Bolsonaro, e com Tarcísio contido, não tem muita alternativa. “Sobra” o governador Caiado, de Goiás.
No Espírito Santo, a fala recente de Casagrande emite sinal de preocupação do governador com o legado dos 24 anos (até 2026) de construção da Nota A do Tesouro e de um núcleo duro de políticas públicas de Estado na socioeconomia. A resultante foi/é um projeto de desenvolvimento regional. O que vai ser deste projeto?
Esta é, aliás, a mesma preocupação do PIB capixaba, como já registrei aqui sábado passado. O foco do PIB é: o que será o amanhã? Como vai ficar o pacto regional de poder?
Esta seria, também, a preocupação do ex-governador Paulo Hartung. Para um círculo reduzido de aliados de primeira hora, ele estaria manifestando esta preocupação. A preocupação com o legado de uma longa construção, desde 2003. A resultante poderá, até, ser uma candidatura de Hartung para um quarto mandato de governador.
A fala do governador Casagrande contém, ao mesmo tempo, uma visão de estadista e uma disposição corajosa de colocar em risco a sua própria trajetória de ascensão política após 2026. Ou não.
Assim se locomovem as nuvens políticas no Brasil e no Espírito Santo. Vamos acompanhar.