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Política

Safra dos governadores vai ditar as novas lideranças no Brasil

Aqueles governadores que realizam uma boa gestão e fazem entregas, para além da realidade paralela da polarização fermentada pelas máquinas das redes sociais, despontam como lideranças que conseguem aglutinar a anarquia da fragmentação partidária

Publicado em 08 de Junho de 2024 às 01:20

Públicado em 

08 jun 2024 às 01:20
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

O federalismo poderá ser o vetor de ascensão de novas lideranças na cena política brasileira. A safra de governadores eleitos em 2018 e 2022 mostra uma renovação política relevante. A de prefeitos também. Aqui no Espírito Santo, alguns prefeitos despontam como lideranças competitivas para 2026.
Ao contrário do que costumam dizer os livros textos sobre a renovação de lideranças nas democracias, aqui, agora, a renovação não parece que virá do Congresso Nacional. A partidocracia das emendas, versão século XXI do coronelismo da República Velha do século passado, não está produzindo novas lideranças de amplitude nacional.
Efeitos bumerangue do processo político: o ex-presidente Jair Bolsonaro desferiu ataques políticos aos governadores no período da pandemia do Covid 19. A pauta do ex-presidente era negacionista. A dos governadores, atuando na ponta dos efeitos da tragédia, não era. Ciência “versus” fake news e supostos efeitos “crocodilo” das vacinas.
Os governadores se organizaram com ferramentas federativas. Uniram-se através da criação e formação de consórcios. Por exemplo, o consórcio dos governadores do Nordeste. E o consórcio dos governadores do Sul e do Sudeste. Com diálogos também no Centro-Oeste e Norte. A maioria do PIB e da força da sociedade brasileira.
Criaram uma força política de resistência e de combate ao negacionismo. Acima de tudo, mitigaram perdas de vidas humanas e criaram um “espírito de corpo” federalista. Uma barragem política. E aprofundaram atenção especial às políticas públicas. Ou seja, o cuidado com a gestão, a governança e a entrega de serviços públicos.
Veio a eleição de Lula em 2022 e o governo Lula 3. Está cada vez mais clara a importância do federalismo na mediação política e na articulação da governança de da governabilidade no país.
Outro efeito bumerangue da partidocraia versão brasileira. Ela jorra emendas pix nos municípios. Cria raízes para apoio de vereadores e prefeitos aos deputados federais. São eles (os deputados federais) que contam para a contabilidade do fundo partidário e do fundo eleitoral.
Mas esse movimento clientelista e eleitoreiro faz renascer uma tradição do processo político brasileiro: a estadualização da política. A política brasileira sempre teve uma inequívoca dimensão regional.
Urna eletrônica, eleição, marketing político
Urna eletrônica Crédito: Shutterstock
A política brasileira é centrada nos estados. Os partidos selecionam os seus candidatos nos estados, e não no plano nacional. E o sistema eleitoral provoca, na prática, o surgimento de candidaturas “quase distritais”. Faz com que os políticos mantenham estreitos vínculos locais. A lógica da carreira política brasileira é local e regional. Confere centralidade política aos governadores.
No final da esteira, aqueles governadores que realizam uma boa gestão e fazem entregas, para além da realidade paralela da polarização fermentada pelas máquinas das redes sociais, despontam como lideranças que conseguem aglutinar a anarquia da fragmentação partidária e dão algum sentido à cacofonia da formação de opiniões. Opiniões líquidas. Da liquefação da política brasileira.
Nesse contexto complexo, as novas lideranças emergentes ou ascendentes não se resumem ao Sul e ao Sudeste. Não mais. O agronegócio mudou o Nordeste, o Centro-Oeste e o Norte. Novos vetores do desenvolvimento do país. Um Brasil que trabalha em silêncio.
A mídia nacional e os institutos de pesquisas têm colocado o foco em Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Ratinho Júnior (PR), Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO).
Entretanto, também são lideranças emergentes ou ascendentes outros governadores (ou ex-governadores) e prefeitos (ou ex-prefeitos): Rafael Fonteles (PI), Wellington Dias (PI), Camilo Santana (CE), João Campos (PE), Renato Casagrande (ES) e Fernando Haddad (SP).
No Espírito Santo, estamos assistindo à ascensão dos prefeitos Lorenzo Pazolini (Vitória), Arnaldinho Borgo (Vila Velha), Euclério Sampaio (Cariacica), Wanderson Bueno (Viana) e Bruno Marianelli (Linhares).
É a safra federalista. Todos gestores bem avaliados. Todos sintonizados com o perfil dos problemas, dos desafios e das políticas públicas dessa já terceira década do século XXI.
Já estão na estrada e poderão estar na raia de partida em 2026 ou em 2030. Mas é preciso saber, antes, qual vai ser o barômetro das eleições de 2024.
Enquanto isso, o que transparece dos fatos de hoje é que o establishment político e econômico brasileiro está indócil, descrente e, portanto, desancorando as expectativas.
Como conversar com o establishment? Como conversar com a sociedade? Eis o dilema estrutural da política no Brasil de 2024.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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