Temos prenúncios de movimentação das placas tectônicas do pacto de poder no Espírito Santo. As pedras do tabuleiro da longa transição política estão em franco movimento. Indicam mutações.
A sucessão do governador Renato Casagrande já está na agenda. A novidade é que ela contém impulsos para uma reconfiguração do pacto de poder. Não apenas uma troca de guarda no governo em 2026. Refiro-me à conformação da coalizão politicamente dominante: poder de Estado.
Na direção de 2026, ainda será preciso passar pelo teste das eleições municipais deste ano e, em seguida, pelo teste da sucessão na Assembleia Legislativa.
Desta vez, as eleições municipais terão mais relevância do que as anteriores. Delas, sairá uma nova correlação de forças, depois de 24 anos de alternância entre as lideranças políticas de Paulo Hartung e Renato Casagrande.
Essa alternância construiu agendas de Estado. Na política fiscal. Na agenda econômica. E nas políticas públicas de educação, saúde, segurança e infraestrutura. O legado é a agenda.
Mas agora, salvo um retorno (improvável?) de Paulo Hartung à disputa da governadoria, o horizonte mais provável é de nova alternância de poder. Será também de agenda? Cedo para especular.
Já a sucessão na Assembleia Legislativa poderá fortalecer a relevância política do atual presidente, Marcelo Santos. Relevância que poderá se transformar em mudança do seu patamar, para a disputa de eleições majoritárias (governador, vice-governador, ou senador). Marcelo já deu sinais que trabalha para aumentar sua musculatura política. Está conseguindo.
Aí, depois da eleição municipal e da eleição do presidente da Ales, vêm os possíveis cenários. Vamos fulanizar os cenários que estão no mercado político, à guisa de especulação.
Cenário um: Ricardo Ferraço disputa a governadoria com apoio de Renato Casagrande. Cenário dois: Paulo Hartung entra na disputa para um quarto mandato e articula alianças ao centro. Cenário três: Marcelo Santos articula e lidera uma aliança de centro-direita. Cenário quatro: Lorenzo Pazolini é reeleito prefeito e em 2026 disputa a governadoria, com aliança de centro-direita.
Para além dos cenários, o que está bem nítido é o horizonte de reconfiguração do pacto de poder. Esse movimento já está em curso.
Depois de 24 anos de hegemonia de Hartung e Casagrande, a correlação de forças mudou. Vamos olhar o panorama, sem aprofundar, pois o espaço aqui é limitado para entrar em detalhes.
Para começar, a sociedade capixaba mudou. Mudou a demografia. Mudaram-se as percepções, as aspirações e o ethos. Na política, tornou-se mais conservadora. Na economia, cresceu o empreendedorismo. Na religião, cresceram os evangélicos.
Mudou também a configuração do PIB capixaba. O capital internacional está em processo de crescimento no ES. O capital nacional também. Já o capital regional se reconfigurou e passou por uma espécie de “revolução silenciosa”: cresceu o tamanho dos empresários do interior do Estado, para além da Grande Vitória. Crescem também os novos pólos de Aracruz e Linhares. E o Sul do Estado inicia mudança de relevância.
Nos âmbito dos Três Poderes estaduais, o Poder Legislativo ganhou mais relevância em relação ao Executivo e aproximou-se mais das bases municipais, praticando uma espécie de “federalismo estadual”. O Poder Executivo também praticou o federalismo. Tanto na direção do governo federal, quanto na direção do poder local/municipal.
O Estado assistiu à prática da pactuação democrática, liderada pelo governador Renato Casagrande. Nesse contexto, as relações Executivo-Judiciário e Legislativo-Judiciário se tornaram mais harmônicas.
Tudo somado, a resultante é um prenúncio de movimentação de placas tectônicas no pacto de poder.