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Economia

A fenomenologia dos juros e da política econômica no Brasil

A economia não é uma ciência exata. É uma arte. Sujeita às incertezas da própria economia real e da evolução da sociedade. Portanto, a política econômica precisa de reajustes recorrentes

Publicado em 25 de Março de 2023 às 00:01

Públicado em 

25 mar 2023 às 00:01
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

É recorrente o tensionamento entre “expansionistas” e “monetaristas”. Pelo menos desde Keynes. Aqui e acolá.
Agora, aqui, mais uma vez. Este novo tensionamento, iniciado pelo presidente Lula, terá sido efetivo e positivo se resultar em nova síntese. Nova síntese entre a política monetária e a política fiscal. O Banco Central manteve a taxa de juros em 13,75% e, literalmente, peitou o governo. Mas o ministro Haddad ainda tem a expectativa de harmonia e síntese. Trabalha nessa direção, com o chamado novo arcabouço fiscal.
Fatos e fenômenos precisam ser levados em conta, para além dos dogmas. Na tradição da fenomenologia, o modelo científico terá êxito quando estabelecer uma “verdade provisória”, que será verdade até que um fato novo mostre outra realidade (na trilha de Husserl).
O fato novo é que a taxa de juros reais está matando o doente. E que a inflação não é de demanda. Os juros retroalimentam a dívida pública e estimulam o desequilíbrio fiscal. Feitas as contas, cada 1 ponto percentual de taxa de juros significa 0,6% do PIB com gastos com dívida. É um círculo vicioso.
A economia não é uma ciência exata. É uma arte. Sujeita às incertezas da própria economia real e da evolução da sociedade. Portanto, a política econômica precisa de reajustes recorrentes. Reajustes conjunturais e estruturais. Neste momento, as premissas “monetaristas” não estão alinhadas com os fatos. Portanto, são premissas inválidas.
Dito isso, também há que se lembrar aos “expansionistas” que é preciso, sim, reestruturar gastos e focalizar novos investimentos (inclusive em capital humano e saúde, claro). Reestruturar significa diminuir o peso de subsídios, desonerações e benefícios fiscais no Orçamento Geral da União (OGU).
E, também, reestruturar o RH do setor público, que tem duplicidade de funções e até funções que não são mais necessárias na realidade digital. Reestruturar é diferente de cortar indiscriminadamente. O OGU tem, ainda, um crescimento vegetativo inercial de projetos e itens orçamentários que são anacrônicos, isto é, não são mais prioridades e necessidades.
Dei essa volta toda para dizer que a tensão só vai diminuir quando o conflito distributivo for mitigado. Com reestruturação de gastos e com crescimento dos investimentos públicos e privados. Há expectativa de que a viagem do presidente Lula à China e aos Emirados Árabes venha a resultar em volume significativo de investimentos internacionais no Brasil. Investimentos liderados por uma possível adesão do Brasil ao “Belt&Road” (Cinturão&Rota), que é uma iniciativa chinesa mundial de investimentos em infraestrutura.
Esse fato novo, ao lado da síntese entre o fiscal e o monetário, ajudaria a ancorar as expectativas. Investimentos produtivos gerando crescimento. E a síntese entre o fiscal e o monetário gerando confiança. A possibilidade de um círculo virtuoso.
É fato que a financeirização do capitalismo tem óbvias repercussões na economia brasileira. Está alimentando uma indústria de fundos financeiros que estimulam o rentismo e não se dirigem adequadamente para investimentos produtivos. No mundo, vale lembrar que os 500 + do ranking da Fortune destinaram US$ 5 trilhões para recompra de ações. E que a maioria dos fundos privados se voltam para os mercados financeiro e imobiliário. Não se dirigem para áreas estratégicas com efeitos multiplicadores nas economias.
Nesse sentido, a financeirização é regressiva, do ponto de vista da riqueza social e da prosperidade. Um círculo vicioso que vai “matar” o capitalismo brasileiro e já diminuiu mais ainda a produtividade e o PIB potencial.
É isso que desejamos? Queremos continuar, sem prosperidade, ameaçando a estabilidade da democracia brasileira?

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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