Há poucos dias o Brasil assinou com os Estados Unidos uma declaração à Organização Mundial do Comércio (OMC) com críticas veladas à atuação da China no comércio internacional. É mais um episódio da demonstração do governo Bolsonaro de alinhamento com o governo Trump. Sinaliza que o país poderá tomar partido no embate comercial que se arrasta desde o ano passado entre as duas maiores economias do planeta.
Isso é tudo o que o governo não deveria fazer. Não apenas porque quebra a tradição multilateral do Brasil. Também não faz sentido a inserção ideológica no comércio externo. Vale lembrar que antes da declaração conjunta com os EUA, aliados políticos de Bolsonaro - incluindo seus filhos e alguns ministros - haviam feito vários ataques à China.
Líderes do agronegócio chegaram a temer retaliação e pediram mudança de postura ao Palácio do Planalto. Quanta incompetência! Desde o ano 2000, marcado pelo chamado "boom das commodities", as importações chinesas passaram a beneficiar fortemente a economia brasileira - com grande reflexo no PIB capixaba, com taxas de crescimento acima da média nacional.
Comércio é comércio. Amanhã, por alguma razão EUA e China costuram um acordo (a chance disso é grande se Trump não for reeleito) e ambos sairão ganhando de alguma forma. O perdedor será o Brasil. Inclusive o Espírito Santo.
No fechamento do primeiro semestre, a China foi o destino de 26% das exportações capixabas. Os EUA compraram 24%, apesar da crise do petróleo. São os dois maiores parceiros dos exportadores do Estado. Juntos, compraram a metade dos produtos embarcados no nosso litoral. É claro que é necessário sempre estar bem com um e com outro.
Outros números mostram quão insensato comercialmente é o apoio aos EUA no embate com os chineses. Entre 2001 e 2019, a participação chinesa nas exportações do Brasil avançou de 1,9% para 28,5%. No ano passado, a balança comercial brasileira teve superávit de US$ 46 bilhões nas relações com a China. Os principais produtos comprados pelos chineses foram a soja (34%) e dois outros com as digitais capixabas: óleo bruto de petróleo (24%) e minério de ferro (21%).
Em 2020, em cenário de pandemia, a China comprou um terço de tudo o que o Brasil vendeu para o exterior no primeiro semestre. Ou seja, um terço dos US$ 101,7 bilhões exportados, segundo dados do Ministério da Economia.