Desde o fim da II Grande Guerra, os Estados Unidos detêm a supremacia econômica, tecnológica e militar no mundo. O sistema das Nações Unidas, assentado sobre os valores democráticos inscritos na Constituição americana, vem mantendo o mundo sem guerras mundiais há 75 anos. Mas o sistema criou também uma burocracia pesada e não tem conseguido resolver conflitos regionais.
Diante disso, formam-se duas grandes correntes na opinião pública americana. Uma quer modernizar a ONU, mantendo os seus princípios norteadores, os direitos individuais, a autodeterminação e a primazia da lei. A outra quer destruir o arcabouço multilateral e instituir uma era de disputa aberta pela hegemonia. O governo Trump é o paladino desta última corrente
O objetivo de Trump é interromper a ascensão da China. Quer, especificamente, impedir que a versão de internet móvel 5G da Huawei, empresa chinesa de equipamentos para telecomunicações, obtenha uso comercial em larga escala mundo afora. Não há dúvida de que convém ao Brasil manter as melhores relações possíveis com os Estados Unidos. Mas a parceria com a China também é essencial para a economia brasileira.
A China é, há dez anos, nosso maior parceiro comercial. Desde 1988, desenvolve com a Agência Espacial Brasileira o programa de cooperação espacial CBERS, que já permitiu o lançamento conjunto de cinco satélites. Enquanto a OMC projetava queda no volume do comércio internacional, o comércio sino-brasileiro, em abril último, quebrava recordes de volume e valor, enquanto caíam as nossas exportações para todas as demais regiões do globo.
Em 2017, os chineses investiram no Brasil cerca de 9 bilhões de dólares, sobretudo nos setores elétrico, óleo e gás, financeiro, serviços e inovação, além de demonstrarem interesse em empresas de saneamento, construção e operação de estradas e ferrovias. Mas já puxaram o freio: reduziram em 70% o volume de investimentos, provavelmente à espera de que o Brasil defina suas escolhas na política externa.
As relações internacionais são definidas pelo interesse dos Estados. Nosso interesse é manter o melhor relacionamento possível com Washington, sem estimular guerras de tarifas ou quaisquer outras, sempre mantendo as Nações Unidas como foro privilegiado de negociações. Não podemos abrir mão dos imensos benefícios que a China nos traz em matéria de comércio e investimentos e precisamos marcar presença na corrida para a internet do futuro. O fino equilíbrio nesse fio da navalha seria um árduo desafio, mesmo se os melhores diplomatas estivessem à frente do Itamaraty.
*O autor é embaixador aposentado e secretário de Meio Ambiente de Vila Velha