As três coisas têm efeitos parecidos, mas não exatamente iguais. Mesmo que recue (como já começa a acontecer na China, felizmente), o coronavírus deve engolir parte do crescimento do Brasil e do mundo pelo menos até o segundo trimestre deste ano. Já coronaverbo (metralhadora verbal, quase logorreia em tom belicoso e de ruptura) não tem prazo para acabar. Para cessar, é necessário que o presidente tenha o mínimo de noção da liturgia do cargo.
Mas ele não demonstra ter. E acha que politicamente não deve ter. Sua estratégia é o confronto. Acha que assim vira mito. Já o pibinho de 1,1% em 2019 deixa herança estatística de praticamente zero para o desempenho econômico de 2020. O ano começa sem impulso. Desacelerado. Quem vai pagar essa apatia? Os pobres. O baixo crescimento só piora os indicadores sociais.
Pibinho significa atraso, e não se explica com banana a jornalistas. Foi mais uma agressão aos profissionais do setor. Se era por falta de palhaço, o circo Bolsonaro ficou completo no anúncio, nada cômico, do pibinho. Aliás, circo sem pão é triste. Bolsonaro acumulou 99 ataques à imprensa em 2019, diz a Fenaj. Birra explícita contra a liberdade de expressão.
O coronaverbo inclui ataques verbais de Bolsonaro, filhos e de alguns ministros a políticos eleitos pelo povo, a jornalistas, artistas, indígenas, professores etc. Também atenta contra normas ambientais, instituições educacionais, Congresso etc. Destila desarmonia. É claro que esse cenário constituiu uma trava à economia em 2019. Afugentou investimentos, em função de conflitos permanentes e incertezas criadas pelo governo.
A inquietação irradiada de Brasília atinge a economia de todos os Estados, obviamente. Porém, têm mais a perder em potencial aquelas unidades da federação bem preparados para atrair investimentos. São mais penalizadas pela sensação de instabilidade. É o caso do Espírito Santo, referência em boa conduta fiscal, condição indispensável à confiança do empreendedor.
O coronaverbo é veneno contra investimento. Os efeitos negativos começaram a ser sentidos com mais ênfase a partir da metade do ano de 2019. No quarto trimestre (outubro a dezembro), o investimento caiu 3,3% comparado ao trimestre anterior (julho a setembro). Ou seja, a economia chegou ao final do ano sem fôlego. O PIB do quarto trimestre foi apenas 0,5% maior do que o do terceiro.
A reforma da Previdência foi aprovada em outubro. Deveria ter incutido mais confiança nas esferas econômicas, evitando a forte retração dos investimentos. Mas prevaleceram incertezas geradas pelo vírus do enfrentamento político e incitações inconsequentes bradadas do Palácio do Planalto. Essa toada é vergonhosa. E torna mais difícil para o Brasil recuperar o grau de investimento dado pelas agências de rating.
No acumulado de 2019, o investimento cresceu 2,2%. O número é alto em relação ao pibinho, no entanto, está bem abaixo do avanço de 3,9% no ano anterior. Em 2019, a taxa de investimento foi equivalente a 15,4% do PIB. Apenas 0,2 ponto percentual acima do nível de 2018. Para se ter uma ideia de como esse número é baixo, em 2013 a taxa alcançou 21% do PIB.
A estimativa dos mercados para o crescimento do PIB brasileiro em 2020 gira em torno de 1,7% (já contando os efeitos do coronavírus, do coronaverbo e da herança estatística deixada pelo pibinho de 2019). A modulação do coronaverbo (menos ou mais acentuado) continuarão a ter influência fundamental, como se viu em 2019. Não dá para o país continuar em confronto permanente do Executivo com o Congresso, e não raro, do Executivo com o STF. Precisamos perder o complexo de República de bananas.