Depois de quase dois anos de isolamento, voltamos à estrada. Outra vez havia sol, esperança e a alegria de estar ali como se não existisse mais nada além de ir, apesar do peso do tempo e das más notícias enfileiradas na dobradinha 2020-2021.
Outra vez era verão, embora a névoa da pandemia ainda pairasse no ar com seus 100 mil novos casos em 24 horas e o medo das estatísticas novamente entre nós.
Outra vez havia canções e boa companhia, a vontade de clarear as ideias e respirar outros ares, a disposição de acalmar o espírito e quem sabe ganhar um bronze, a despeito dos compromissos em compasso de espera.
As dúvidas eram diferentes, o livro que faltava pouco para acabar também. Por outro lado, ao voltarmos à estrada, seguia firme e forte a ideia, antiga e certeira, do poder transformador de uma viagem, mesmo as mais curtas e menos surpreendentes.
Voltar à estrada dois anos depois e apesar das más notícias enfileiradas na dobradinha 2020-2021 me lembrou a minha amiga de tantos anos e sua coragem imensa de ser feliz.
Me lembrou desapego, simplicidade, prioridades, “Thelma e Louise” e seu espírito de explodir as regras todas. Me lembrou Jack Kerouac e seu viajar pelo mundo de carona.
Voltar à estrada, a despeito da névoa da pandemia, me lembrou “Diários de Motocicleta” e as intenções iniciais daquele homem que quis mudar o mundo.
Me lembrou “Paris, Texas” e a decisão de caminhar em busca de redenção. A estrada me lembrou Elizabethtown e as músicas que nos movem em determinadas trilhas.
Voltar à estrada, naquela altura, tinha ainda um significado extra. Num tempo em que nos equilibramos entre a esperança de amanhãs melhores e o horror, entre o balanço dos novos projetos e o peso dos sonhos desfeitos, estar outra vez em movimento me lembrou o valor de seguir adiante.
Num tempo em que nos equilibramos entre a resiliência e a resistência, entre a vontade de dançar, sair, sorrir e a carga dos acontecimentos, entre a saudade e a gratidão, estar outra vez em movimento me lembrou do privilégio que é estar viva.