Há algum tempo, escrevi a respeito de um depoimento curto e grosso que circulava pela internet e criticava uma contradição comum do nosso tempo.
- Muito legal seu texto no Linkedin. Pena que eu já trabalhei com você.
O resumo da ópera, naquele dia como agora: de nada adianta postar bonito no Linkedin ou ostentar competências e certificações se, no miúdo do expediente, sua prática desencoraja no lugar de estimular, seus métodos se revelam duvidosos, sua subida puxa o tapete do outro, seu trato tem o efeito de um trator.
A conversa de hoje nos leva àquela outra. E sabe por quê? Porque não adianta celebrar o Dia Internacional das Mulheres na rede social e destratar na vida privada, assediar nas outras noites do ano, pagar salário menor no final do mês ou interromper no meio da frase.
A reflexão vale para mim, para você, para todo mundo, no 8 de Março e além.
Não adianta se dizer feminista na rede social e sacanear outras mulheres pelas costas, se dizer justiceiro de grandes causas e ser injusto nos pequenos julgamentos. Não adianta falar de Deus em sua infinita bondade e semear a discórdia, o egoísmo e o rancor assim que a missa termina.
Não adianta promover despedidas emocionadas enquanto oferece a mais absoluta ingratidão aos que estão presentes. Não adianta postar dizeres sobre empatia e mover um total de zero músculo para tentar compreender o ponto de vista alheio.
Somos diariamente empurrados a exibir o melhor ângulo, a felicidade constante, a frase de efeito, a endorfina em dia, o relacionamento perfeito, a paisagem de tirar o fôlego, a vida sem perrengues.
Mas nem sempre o que postamos reflete, realmente, o que passamos, pensamos ou praticamos. A despeito de toda imperfeição que há, porque faz parte, aqui, ali e nas redes vizinhas, parecemos sempre gratos, focados, produtivos, solidários, coerentes e conciliadores.
Não sei se é para tanto, mas li um filósofo defendendo que, se você quer saber como uma pessoa de fato é, você deve descobrir o que ela busca no Google e não o que posta na rede social. No buscador, ele diz, nos revelamos de modo mais profundo e verdadeiro, sem truques, recortes ou segundas intenções.
Ali, mais do que nos retratos que escolhemos mostrar, estão as perguntas que fazemos, as informações que desejamos ter, as dúvidas que guardamos, as ruas e atalhos pelos quais decidimos caminhar.