Passei os últimos dias em família, revendo memórias, renovando histórias, celebrando a vida apesar das ausências. De reencontro em reencontro, alimentamos afetos que se confundem com biografias inteiras. Visitamos outras décadas, revigoramos laços, lembramos dos que se foram, abraçamos os que seguem por aqui.
Ao voar de volta às raízes, mergulhamos na essência invisível que nutre o que somos e a forma como chegamos onde chegamos.
É a Biologia quem determina: raízes são partes fundamentais para o crescimento de uma planta. Elas fixam e sustentam tronco, folhas e frutos, comandam a absorção de água e sais minerais, guardam o eixo que segura todo o resto. Se tiver galhos e tronco cortados, uma árvore pode florescer outra vez, desde que mantenha a raiz intacta no solo.
Raiz é base, a partir de onde os caminhos se constroem.
Ao contrário das âncoras, que também remetem à segurança e à estabilidade, mas podem configurar peso e paralisia, raízes lembram movimento e transformação.
“Raiz alimenta, âncora imobiliza. Quem tem âncoras vive apenas a nostalgia e não a saudade. Nostalgia é uma lembrança que dói, saudade é uma lembrança que alegra”, defende o filósofo Mario Sergio Cortella, em um vídeo famoso que circula pela internet.
Embora sejam de grande utilidade nas derivas, nas tempestades ou nos dias de mar revolto, por serem maciças, pesadonas e resistentes, as âncoras podem interromper o fluxo e o desenvolvimento das navegações, tanto as reais quanto as simbólicas.
Dizem que, quando navegavam para conquistar um novo território, os vikings colocavam fogo em seu navio assim que aportavam na terra estrangeira. Eles não tinham a menor ideia do que viria pela frente, mas acreditavam que a única trilha possível era a batalha que os esperava.
Segundo consta, o ato extremo de queimar navios ao invés de mantê-los ancorados dava aos nórdicos meio guerreiros meio piratas forças para ir em frente, sem olhar para trás.
A prática dos vikings também teria inspirado Chico Buarque a escrever o verso “rompi com o mundo, queimei meus navios” da canção “Eu te Amo”, dele e de Tom Jobim. Uma canção que, numa dessas coincidências da vida, me leva a rever memórias, celebrar a vida apesar das ausências, relembrar os que se foram e abraçar os que seguem por aqui, acreditando sem tirar nem pôr no que o filósofo defende. Ter raízes é bem melhor do que ter âncoras.