Há um sólido, embora nem sempre evidente, limite na forma como usamos a liberdade de expressão e as opiniões que temos sobre as coisas. Uma fronteira incontestável, mesmo que tênue, entre o que pode ou deve ser dito e o que ofende, magoa, invade ou se configura como crime segundo a lei vigente.
Para dizer de um modo suave, tomo emprestado o verbete-poema de João Doederlein.
respeito. substantivo masculino. é cultivar empatia dentro do próprio peito. é mapa que mostra limites. é saber que a sua palavra pesa. é não condenar a fé de quem reza. é não entortar o olhar pra roupa que ela quer vestir. nem pra boca que ele quis beijar. é não apontar o dedo. é não fazer o outro viver com medo. é um valor em extinção (que ainda pode ser salvo). é não duvidar de quando ela diz não. é saber que seu livre-arbítrio não é desculpa pra magoar ninguém.
Para dizer, também, de um modo mais objetivo: quando uma opinião ou ação espalha o ódio ou a mentira, o racismo, a homofobia ou outros crimes claramente previstos no ordenamento de uma democracia, não estamos mais diante do direito de falar o que nos dá na telha.
Em outras palavras, a liberdade de expressão não autoriza que um crime seja cometido em nome dela. Por outro lado, o bom senso e o trato em sociedade recomendam que a vida privada de alguém não seja desestruturada, escarafunchada ou desrespeitada apenas porque são livres os caminhos para manifestarmos opiniões, ideias e pensamentos.
O mesmo vale para a invasão do espaço privado pelo juízo alheio. Cancelar, julgar, criticar, detonar: somos uma sociedade de muitos mestres no fazer com os outros o que não gostaríamos que fizessem com a gente.
A confusão em torno do assunto virou moda nestes tempos de polarização e intolerância. Mas, apesar dos que defendem que a liberdade de expressão tudo libera, a verdade é que a democracia e a convivência harmoniosa têm lá suas regras.
Essas regras passam pelo respeito à diversidade, pelo zelo com a verdade e pela obediência à legislação. Ou então, como diriam nossos avós, pela ideia, simples e certeira, de que a liberdade de um termina onde começa o direito do outro.