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Crônica

Tempo dos bichos nos lembra de respirar, apesar do que pesa

Ao contrário de nós humanos, a maioria dos habitantes do mundo animal regra o andamento dos dias e noites pelo que o corpo precisa: comida, descanso, esconderijo, brincadeira, sossego, proteção

Publicado em 20 de Outubro de 2024 às 02:30

Públicado em 

20 out 2024 às 02:30
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Passei os últimos dias prestando especial atenção ao tempo dos bichos.
Ao contrário de nós humanos, a maioria dos habitantes do mundo animal regra o andamento dos dias e noites pelo que o corpo precisa: comida, descanso, esconderijo, brincadeira, sossego, proteção.
Segundo consta, há espécies que observam ainda a diferença entre manhã, tarde e noite, como também as mudanças de estação e o fato de ser domingo, quando o ritmo da casa geralmente diminui.
Como daquela vez em que a lição vinha dos peixes - do Telescópio menor e resistente, do outro Kinguio, maior e mais clarinho, das Coridoras com seu movimento sutil -, parei para ver a adaptação de um gato a outro, um adulto acostumado a dominar todo o território da casa a um filhote movido pela curiosidade de quem acaba de chegar.
Naquela época, eu olhava o vaivém dos peixes e pensava no que havia, se irritação, impaciência, fome ou teimosia. Pensava se havia ciúme do outro peixe, preguiça de ficar parado ou apenas nadar, de um lado até o outro, sem medo da morte ou coração partido, sem trabalho por fazer ou vontade de desistir, sem culpa, pena de si mesmo, dor no cotovelo ou rancor.
Caixa de areia para gatos
Gatos em convivência Crédito: Shutterstock
Gostava de passar um tempo diante do aquário como gostava de determinadas rotinas, listar as tarefas do dia para que não escapassem ao longo do expediente, escolher o disco conveniente antes de cada faxina e almoçar duas vezes no domingo.
[Ainda gosto].
Agora, diante do gato adulto acostumado a dominar o território da casa e do filhote movido pela curiosidade de quem acaba de chegar, tive de desacelerar o relógio. Tive de aceitar os modos de apresentar um ao outro e controlar a vontade de que eles se tornassem parceiros como Tom e Vinícius, João e Aldir, Lennon e McCartney, Roberto e Erasmo.
Tive de compreender o tempo dos bichos, que em nada se parece com o nosso.
Cheiro, território, associação positiva, feromônios, regularidade: o tempo dos bichos segue uma lógica bastante distante das medidas que a gente costuma obedecer. Um relógio regido pela sabedoria da natureza, a nos lembrar de acalmar as expectativas, aceitar as diferenças, respeitar o andamento alheio e respirar, apesar do que pesa.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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