Caminhar é um modo de andar de volta para nós mesmas
Crônica
Caminhar é um modo de andar de volta para nós mesmas
Uma inspiração para reivindicar nosso espaço, reescrever a narrativa imposta a nós, nos encontrar nas ruas e cafés, celebrar a coragem de ocupar espaços, explorar caminhos e de vez em quando se perder neles
Tem sido um jeito interessante de ver as coisas: a estrada e a caminhada como potência e movimento, sua capacidade de ajudar a reconstruir a esperança em dias melhores, rever sentidos que faltam, traçar novas estratégias, enxergar conexões menos visíveis, superar encruzilhadas, descobrir e redescobrir as cidades e a gente mesmo.
A marcha lenta, que de modo real e metafórico a gente não alcança de carro, privilegia outro tipo de relação com o lugar, como se cada cidade tivesse uma cor na memória de quem caminha ou pedala por ela.
Vitória, por exemplo, sempre me pareceu azul, enquanto Londres surgiu cinza como São Paulo; Paris, rosa; Belo Horizonte, bege; e Salvador, vermelha como a fraternidade daquele lindo filme de 1994.
“Flâneuse”, o livro de Laura Elkin sobre o caminhar de escritoras por Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres e o hábito dela própria de andar pelas diferentes localidades onde viveu, por razões de trabalho ou de amor, nos leva além. A obra revela o significado de ser uma mulher que anda, que escreve como um caminho, que busca o equilíbrio entre a necessidade e o desejo, a leveza e a profundidade.
A mulher que caminha — a flâneuse — é como o flâneur de Benjamin e Baudelaire, mas diferente. Enquanto o explorador urbano que vaga entre ruas e vielas, vendo poemas no cotidiano, carrega o direito inquestionável de ir e vir sossegado, mulheres são expostas ao julgamento alheio, ao descrédito e à insegurança.
Porque — que ninguém se engane — flanar sendo mulher é diferente de flanar sendo homem. Nós batalhamos por cada centímetro de rua, calçada e faixa de pedestres, muitas vezes intimidadas pelas estruturas políticas, sociais e históricas que limitam esse vagar, preocupadas com a violência que, para as mulheres, tem sempre um tom acima.
Mulher caminhandoCrédito: siraphol s./ Freepik
No livro, Laura Elkin aponta também como as caminhadas ajudaram as escritoras Jean Rhys, Virginia Woolf, Sophie Calle, Martha Gellhorn, George Sand, Joan Didion e Agnès Varda em seu trabalho. Minha xará mescla as memórias de suas andanças a uma reconstituição histórica e cultural, partindo das leituras de Jean, Virginia, Sophie, Martha, George, Joan e Agnès.
A obra — alguém disse, com toda razão — nos inspira a reivindicar nosso espaço, a reescrever a narrativa imposta a nós, a nos encontrar nas ruas e cafés, a celebrar a coragem de ocupar espaços, explorar caminhos e de vez em quando se perder neles. Às vezes, diz o livro, o que precisamos é seguir o fio da meada para onde ele nos leva. Caminhar, afinal, pode ser um modo de andar de volta para nós mesmas.
Ana Laura Nahas
É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura