Dizem que a primavera é uma excelente temporada para recarregar as baterias emocionais, alimentar a energia que antecede os dias-delícia do verão, saborear a doçura natural das pequenas coisas, deixar que os novos ciclos experimentados nos jardins se façam também dentro de nós.
De acordo com o que dizem, o florescer das flores seria o ponto de partida ideal para o florescer da gente, renovar sentimentos, fortalecer [às vezes reconquistar] o interesse pela vida, respeitar os processos, se abrir para novos aprendizados. Daí a boa hora para celebrar o fim da frieza e dos distanciamentos, despertar as cores adormecidas pelo frio, honrar a natureza e as semeaduras.
Enquanto o verão remete à leveza e à simplicidade e o outono lembra faxina, arrumação e voltar a sorrir também com o espírito, e não apenas com os dentes, a primavera tem em si a ideia de equilibrar as balanças. Corpo e mente, sol e vento, dia e noite, as pessoas e o planeta: todos juntos, com o tanto de harmonia que for possível.
Se o verão abriga chegadas ou reencontros e o outono guarda a decisão difícil, mas certeira, de deixar, transformar, virar a página, a primavera nos inspira a regar nossos jardins e plantar sementes de renascimentos e reorganizações.
Povos muito antigos sabiam disso e festejavam a primavera como um marco de renovação e recomeços, um tempo bom para primeiros passos, depois do período de silêncio e observação típicos do inverno.
Nossos antepassados respeitavam o significado de equinócios e solstícios, com tudo o que havia dentro, porque conheciam a potência dos estágios da natureza para a própria vitalidade. Muitos de seus rituais tinham como objetivo fortalecer o espírito conforme os ciclos do mundo ao redor.
Eles sabiam sobre o ritmo, a suavidade e a sabedoria de astros, plantas e bichos, o caminho, o processo e o movimento de cada estação. Além do mais, é bem possível que concordassem com o que Drummond diria, muitos outonos e primaveras depois, que entre a raiz e a flor havia o tempo.