Às vésperas do carnaval que não haverá e por ocasião dos 100 anos da Semana de Arte Moderna, voltei a pensar no quão apagada anda a nossa mania raiz, o jeitinho típico, a maneira brasilis de ser por excelência.
A alegria sumiu de cena aí também?
A pandemia nos atingiu duramente na brasilidade, este conjunto de modos de inventar a vida que nos caracteriza como povo. O jeito coletivo de sambar, literal ou metaforicamente, na cara dos problemas. O misto de talento tropical com resiliência, a despeito do que pesa. O hábito de rir o quanto possível apesar das ausências, dançar quase sempre apesar das perdas, celebrar a festa, o sol, o barulho da rua.
Ficou difícil manter o riso e a leveza de pé diante das más notícias, da fome de tanta gente, da exaustão do isolamento, dos índices de desemprego, do medo, dos quase 630 mil mortos pela Covid e de tudo de ruim que gravita ao redor dos números.
Há alguns meses, duplamente vacinados e com dose de reforço a caminho, passamos a acreditar que a vida voltava ao normal. Retomamos encontros, eventos, projetos, planejamentos. Só que, de repente, os altos índices de infecção, mortes e ocupação de leitos hospitalares reapareceram, a nos assombrar e empurrar de novo para dentro.
Pelo mesmo motivo - a mania raiz, o jeitinho típico, a maneira brasilis de ser por excelência - a esperança nos acompanha, com pandemia e tudo. Somos um pouco modernistas, afinal, acostumados pela própria natureza a recriar, renovar e revigorar a cultura e as coisas.
Aliás, hoje deve ser um bom dia para repetir que o legado do modernismo nos ensina a ter raízes e não âncoras, derrubar muros e construir pontes, apesar do clichê, sair da bolha, celebrar a diversidade, abrir espaço para assimetrias, discordâncias e opostos.
Ser modernista nos ajuda a seguir quando a alegria falta.