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Racismo

Moïse e o poeta: briga tem hora para acabar, luta é para sempre

Um retrato da injustiça de um país cordial até certo ponto, mas racista, desesperançado, violento, desigual e às vezes cruel

Públicado em 

06 fev 2022 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Rio de Janeiro
Moïse Kabamgabe foi brutalmente espancado e morto no Rio de Janeiro por seguranças de um quiosque Crédito: Arquivo pessoal
Não é fácil manter a suavidade quando, enquanto escrevo, o noticiário ecoa a morte de Moïse Mugenyi Kabagambe, de 24 anos, a pauladas, em um quiosque do Rio de Janeiro.
Os detalhes são de tirar o fôlego, do pior jeito possível. Três homens. Um mata-leão. Um taco de beisebol e pedaços de madeira. A vítima amarrada, desacordada e espancada por cerca de 20 minutos. A sequência inteira registrada pela câmera de segurança que um dos agressores acreditou estar desligada.
O nome do lugar não deixa de ser irônico: Tropicália, uma referência explícita ao clima leve deste país-abençoado-por-Deus-e-bonito-por-natureza e ao espírito de generosidade, diversidade e liberdade do Tropicalismo de Caetano, Gil, Gal, Torquato e os modernistas.
Não é fácil manter a suavidade quando, enquanto escrevo, o noticiário ecoa o desespero do parente, sua enorme decepção com o Brasil, a falta de respostas e as declarações para desqualificar a vítima, como se fosse possível relativizar a barbaridade que é matar alguém de tanto bater.
Onze anos antes, Moïse Kabagambe e a família saíram do Congo, na África Central, fugindo da violência. A tentativa era deixar para trás a devastação promovida pela Guerra Civil que assolou o país até 2003 e os violentos confrontos entre etnias regionais.
Segunda maior nação do continente africano e uma das mais pobres do mundo, o Congo tem hoje mais de 5 milhões de refugiados, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Os motivos são parecidos em todos os casos: gente que deixa seu lugar de origem na esperança de uma vida melhor.
Nas palavras da mãe de Moïse, que dão realismo aos números, no Congo "matam com faca, cortam cabeça, cortam tudo, e aqui também".
Não é fácil manter a suavidade quando, enquanto escrevo, o noticiário ecoa uma frase dessas e a dor de uma mãe que se parece com a dor de tantas outras mães e de mais uma família reunida na sala chorando um jovem preto que se foi cedo demais.
Um retrato da injustiça de um país cordial até certo ponto, mas racista, desesperançado, violento, desigual e às vezes cruel, a nos lembrar do que disse o poeta Sérgio Vaz, que uma briga tem hora para acabar, mas uma luta é para sempre.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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