Leio com alegria e uma ponta de esperança a notícia da empresa famosa que decidiu retirar as palavras NORMAL e PERFEITO das embalagens e dos rótulos de seus produtos de beleza até 2024. A medida vale também para todas as comunicações da marca.
Pode parecer um detalhe ou, como dizem aqui e ali, mais um sintoma de que o mundo anda chato pra caramba. Mas que ninguém se engane. A decisão é simbólica, e o passo, relevante, na longa caminhada que trilhamos por igualdade, inclusão, leveza e potência.
Sabemos hoje o que não sabíamos há algumas décadas: que os conceitos de normalidade e de perfeição nos aprisionam em padrões muito distantes da poderosa diversidade da vida real.
Entendemos o que não entendíamos algumas décadas atrás: que marcas, sinais e diferenças têm seu preço e seu papel; unha e cutícula com o que somos, de fato.
Assim, como vender uma pele perfeita ou um cabelo normal ignorando as rugas, as cicatrizes, os cachos ou os fios grisalhos que contam um pouco da nossa história?
Como grifar perfeição e normalidade no rótulo de produtos feitos pra gente como a gente, que alterna dias felizes, dor, saudade, fé, paixão, desgosto, energia, coração partido, produtividade, desânimo, tudo misturado?
Como querer padronizar o reflexo de tantas diferenças na frente do espelho ao invés de celebrar que elas existem? Graças aos deuses e deusas, ao contrário do que víamos há alguns anos, os limites se ampliaram, e o padrão passou a ser não ter padrão.
É claro que uma decisão isolada, e certamente pautada também em interesses econômicos e estratégicos, como a da empresa famosa que decidiu tirar de cena as palavras NORMAL e PERFEITO, não vai nos salvar das ditaduras a que ainda nos submetemos ou somos submetidas.
Um rótulo que não exalte a “pele perfeita" não vai livrar uma mulher de ser espancada ou morta pelo companheiro. Uma embalagem que não diga como meu cabelo deve se comportar não vai evitar que, em pleno 2022, muitas de nós ainda ganhem menos do que um homem para desenvolver o mesmo trabalho. Uma propaganda que não fale a respeito de “branqueamento” não vai acabar com o racismo.
Ainda não.
Mas a lente da História, pródiga em lições, nos mostra que é assim que evoluímos, um passo depois do outro.