Faz alguns dias que a irretocável carta aberta de Jamil Chade sobre o drama de ser mulher em tempos de guerra ganhou a internet. Os ecos do que ele escreveu ainda seguem, em alto e bom som, renovados diariamente pelas notícias a respeito dos muitos desrespeitos que nos atingem, individual ou coletivamente, nesta bruta temporada.
Chade se dirigia ao deputado que disse que refugiadas de guerra "são fáceis porque são pobres''. Um homem público escolhido como representante na política por 478.280 brasileiros que - quero crer - não gostariam de ver as mulheres que amam sendo estupradas por soldados estrangeiros.
[Pausa para recuperar a fé na humanidade].
Na carta, Jamil Chade mostra como a violência sexual tem sido uma arma recorrente ao longo da História.
Jornalista com longa experiência na cobertura de conflitos armados e suas consequências sociais e psicológicas, ele escreve, com toda razão, que mulheres precisam passar a vida se explicando apenas por serem mulheres. O que dizer, então, dos direitos femininos durante uma guerra, onde as regras e a moral cedem seu lugar à força e às leis da bomba?
Em um mundo tão frenético, o áudio do deputado e a carta aberta do jornalista talvez já fossem página virada depois de uns dias, não houvesse tantas outras notícias, na sequência, a lembrar que palavras não são apenas palavras.
Quatro dias depois do áudio do deputado, por exemplo, um levantamento mostrou que 2022 tem a menor verba dos últimos quatro anos destinada pelo governo federal para o combate à violência contra a mulher.
Nove dias depois da carta aberta que escancara o quanto os corpos femininos ainda são vulneráveis a decisões e desejos dos homens, a morte da vereadora Marielle Franco completou quatro anos. Até agora não se sabe quem mandou matá-la.
Palavras - pois é - não são apenas palavras. Elas verbalizam a forma como enxergamos o mundo, amamos ou desprezamos os semelhantes, elegemos quem nos representa e escolhemos de que lado estamos em tempos de paz e em tempos de guerra.